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Emigrantes e imigrantes, duas barricadas sem sentido

É a partir de algumas redes sociais que reparo, com grande espanto, em algumas intervenções de emigrantes portugueses relativamente aos imigrantes que escolheram Portugal para viver e trabalhar. É certo que Facebook e Instagram são apenas uma janela muito embaciada para ver a realidade, mas não deixa de ser preocupante ver aquilo que se publica por pessoas que abandonaram a região de Lamego em busca de uma vida melhor – ora aí está a primeira grande semelhança que, por si só, invalida qualquer azedume.

Lembro-me bem de o final do Ensino Secundário ser patrocinado com uma mensagem muito clara: alguns dos amigos que partilharam as mesas da escola comigo, durante anos a fio, estavam já a fazer contas à vida e a escolher a Suíça como destino imediato em busca de um futuro possível. Esse horizonte nada tinha que ver comigo, mas não deixava de ser uma tristeza profunda. Uma resignação que, a dada altura, parecia ser isso mesmo: não há nada a fazer; Portugal é o que é, e em meia dúzia de meses a conta bancária floresce. Não nos enganemos. Na altura, tal como agora, era o apelo de uma vida mais desafogada que motivava tantos planos. Totalmente legítimo. Sempre encarei as escolhas individuais como isso mesmo. Um território alheio ao meu quintal. O que lamentava era olhar pela janela e começar a contar as casas abandonas e a colocar em rodapé o destino final de tanta boa gente.

Quase trinta anos depois de uma sangria desenfreada de gente – e que ainda hoje estamos a sofrer – fico efetivamente chocado com o nível de azedume com que muitas dessas pessoas que abandonaram a nossa região atiram sobre os que vão sendo cada vez mais presentes na realidade e quotidiano em Lamego. Palavras feias, suposições graves e falsas. O que me leva a pensar numa lógica bastante simples e prosaica: então e se estes nossos amigos fossem assim também recebidos na Suíça? E na França? Imagino que alguns até foram.

Muitas vezes tento colocar-me na pele dessas pessoas. Compreender o racional. Será uma frustração pela distância? Uma manifestação azeda provocada pela saudade de ver o tempo a passar e o regresso tardar? Tudo isso até poderia amenizar uma certa ideia que me assalta e que é pouco abonatória, no fundo. Neste particular, é como o Papa Leão XIV dizia há dias, em Espanha, que nenhum de nós se pode colocar de um lado de uma contenda quando fazemos parte de um todo.


Fábio Ribeiro, in Voz de Lamego, ano 96/30, n.º 4855, de 17 de junho de 2026

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