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Eleição e aliança: uma terra e uma descendência

Em muitas famílias, em muitas povos, a posse da terra tem provocado contendas, conflitos, ruturas, agressão e morte. Ao longo dos séculos, a conquista da terra, o tomar posse de um lugar, tem-se feito ora de forma pacífica, ocupando território não explorado, ora pela força, expulsando os naturais ou, simplesmente, eliminando-os, prevalecendo a lei do mais forte.

Por um pedaço de terra, se mata um irmão! Por um pedaço de terra, se dividem famílias. Vejam-se as partilhas! A herança deixada pelos pais, à custa de trabalho, para deixar alguma coisa aos filhos, transforma-se, pela sua morte (a dos pais), em motivo de discórdias que levam anos ou décadas a superar ou se tornam vitalícias, sem usufruto da herança… O que seria um bem, torna-se um pesadelo. Famílias cujos os membros se davam na perfeição, depois da morte dos pais tornam-se um espaço destrutivo de discussões e conflitos.

Nos dias que transcorrem, vemos, ao nível mais global, vários conflitos, a maioria dos quais continua a ser pela disputa territorial, alargando fronteiras, tentando eliminar os povos vizinhos ou a submetê-los pela força, pela ameaça, pelo estrangulamento económico. A expansão portuguesa moveu-se pelo projeto de alargar o território e favorecer o enriquecimento do país e sobretudo da realeza e da nobreza, ainda que na base se falasse na missão da evangelização cristã. Ainda hoje a religião serve de desculpa ou de justificação para muitas das barbaridades perpetradas contra outras nações.

O que vemos na Ucrânia, na guerra imposta pela Rússia, é escandaloso. Com a justificação da segurança para o país, invade-se outro país e destrói-se quanto se encontra pela frente, ainda que também os russos paguem uma fatura elevada. Novamente os senhores da guerra a exigir sacrifícios a milhares de famílias, destruindo-as, obrigando os filhos, mas também os pais, a deixarem a alegria da família para se tornarem assassinos ou para serem mortos por uma causa que só causa destruição e caos. A guerra, tantas vezes o repetiu o Papa Francisco, é suja, é um absurdo, não traz nada de positivo. A violência gera mais violência, multiplica a vingança, acentua a miséria, rouba a paz, aniquila a vida e todos os projetos pessoais, familiares e nacionais. Obviamente, que há momentos em que é necessário defender-se, não poderemos ser ingénuos, mas muitas vezes a autodefesa converte-se em desculpa para o massacre. Israel tinha motivos para resgatar os reféns das mãos dos terroristas do Hamas, mas a partir de então tudo tem valido para invadir, expulsar, tomar conta de território, aniquilar quem se atravessar nesse caminho de vingança.

A eleição do Povo de Israel contempla a descendência e a terra. Levou tempo até que o estado de Israel fosse reconhecido internacionalmente. O mesmo reconhecimento que o povo palestiniano tem direto e que lhe vai sendo negado.  A história vale para uns e para outros. Os conflitos têm séculos e a convivência nunca foi fácil, mas, para a sobrevivência dos dois povos, ter-se-á que chegar a um entendimento de mútuo reconhecimento. Israel tem direito a ser pátria para os judeus; a Palestina terá que ser pátria para os palestinianos! Para a convivência pacífica são necessárias cedências de parte a parte, de contrário haverá sempre uma multidão de pessoas a serem sacrificadas pelos caprichos de uns poucos, mais preocupados em defender os seus lugares e a manter os seus postos.

A Noé, a Abraão, a Moisés, Deus prometeu proteger e guiar, multiplicar a descendência e garantir uma pátria, até que a concórdia fosse possível com os povos vizinhos. Em Abraão serão abençoados todos os povos da terra. Também a Palestina e os seus membros são filhos amados de Deus e também eles são eleitos, também eles são, em Abraão, abençoados. Também eles têm direito à terra e à descendência.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/37, n.º 4813, de 13 de agosto 2025

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