O Papa Francisco explica como Deus nos precede no amor com uma expressão utilizada no espanhol: “primeirou-nos”! Ele primeiro, vem antes, criou-nos por amor, por amor nos dá o Seu filho Jesus, por amor nos salva. Deus toma a iniciativa, não espera que o façamos, procura-nos. Na história do cristianismo, não apenas Deus nos procura, como vem ao nosso encontro, faz-Se um de nós, encarna, assume a nossa natureza humana, carnal e finita. Jesus Cristo, Deus connosco, é em tudo igual a nós, exceto no pecado. Toma sobre Si as nossas dores e sofrimentos, a nossa fragilidade, sujeita-Se a sofrer, a ser perseguido, condicionado pelas coordenadas do tempo e do espaço, está limitado, na história, a nascer, padecer, amar, sofrer, alegrar-se, sentir, morrer. Assim é a sina de todo o ser humano. Tudo por amor. Por nos amar. Para nos mostrar a beleza e a importância de amar, abrindo-nos as portas da eternidade, pois o verdadeiro amor não pode e não quer sujeitar-se à finitude, à limitação espácio-temporal, anseia por perdurar, para sempre.
Com data de 24 de outubro, dentro da última semana da XVI Assembleia Sinodal sobre a Sinodalidade, foi revelada a carta Encíclica do Papa Francisco, DILEXIT NOS (Amou-nos) sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus. É conhecida a devoção ao Sagrado Coração de Jesus (e ao Imaculado Coração da Maria). Nas primeiras sextas-feiras de cada mês, em muitas das nossas paróquias, continua esta dinâmica orante, com o sacramento da Penitência, a celebração da santa Missa em honra do Sagrado Coração de Jesus, a comunhão sacramental, e a oração (súplica) pelos membros do Apostolado de Oração (vivos e falecidos). A Companhia de Jesus assumiu esta missão de difundir o amor e a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Agora é a vez do santo Padre, também ele jesuíta. Para reforçar esta dinâmica, os jesuítas reabilitaram o Apostolado de Oração, com a nova designação, “Rede Mundial de Oração do Papa”, que difunde a intenção do Papa para a oração em cada mês, disponibilizando diferentes subsídios, como o vídeo com a intervenção do Papa a explicitar a intenção mensal, bem como outras ferramentas de oração e meditação. Em 2020, a Rede Mundial de Oração do Papa (RMOP), esta Obra Pontifícia, foi constituída como fundação vaticana. “Atualmente, em Portugal, a RMOP, principalmente através do Apostolado da Oração, está presente em todas as dioceses e na maioria das paróquias, contando mais de três mil centros” (in RMOP).
Diz o santo Padre a abrir esta missiva ao povo santo de Deus: “«Amou-nos», diz São Paulo referindo-se a Cristo (Rm 8, 37), para nos ajudar a descobrir que nada «será capaz de separar-nos» desse amor (Rm 8, 39). Paulo afirmava-o com firme certeza, porque o próprio Cristo tinha garantido aos seus discípulos: «Eu vos amei» (Jo 15, 9.12). Disse também: «Chamei-vos amigos» (Jo 15, 15). O seu coração aberto precede-nos e espera-nos incondicionalmente, sem exigir qualquer pré-requisito para nos amar e oferecer a sua amizade: Ele amou-nos primeiro (cf. 1 Jo 4, 10). Graças a Jesus, «conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4, 16)”.
O mote está dado. Deus “primeira-nos”, precede-nos no amor. Jesus é Deus connosco, faz-Se tão próximo que se confunde com qualquer mortal. A devoção ao Coração de Jesus não é um fragmento da fé, mas a acentuação do amor de Deus para connosco. No coração está Deus inteiro! No coração de Jesus, está o nosso coração, a nossa vida. O coração expressa o amor, a misericórdia, a compaixão de Deus. No Coração de Jesus, está a Cruz, a vida, a morte, a entrega, o mistério pascal completo. “Mas, se a imagem de um coração com chamas de fogo pode ser um símbolo eloquente que nos recorda o amor de Jesus Cristo, é conveniente que esse coração faça parte de uma imagem de Jesus Cristo”. Daí a proibição de colocar nos altares representações isoladas do coração de Jesus ou de Maria, essas ficam reservadas para a devoção privada. A imagem do coração remete-nos para a totalidade de Jesus.
Cristo “amou-me e a Si mesmo Se entregou por mim” (Gál 2, 20). Como responder a esta iniciativa? Como acolher tão grande dádiva?
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/1, n.º 4778, de 13 de novembro de 2024




