Na próxima sexta-feira, 27 de junho, celebramos a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Na nossa diocese, o Apostolado de Oração continua a ser um movimento muito presente e vincado nas nossas comunidades paroquiais, especialmente nas paróquias mais pequenas, com a devoção do Sagrado Coração de Jesus, nas primeiras sextas-feiras. Anualmente, como festa móvel, na sexta-feira, depois da segunda semana após o Pentecostes.
Nos dias que transcorrem, focar-nos nos afetos, no coração, na delicadeza talvez seja a porta que nos insere no caminho da paz. Se desvalorizarmos os afetos, se nos fixarmos somente na razão e na ciência, cedo perderemos o que nos identifica como seres humanos. Com efeito, somos um todo, psicossomáticos, não duas vias estanques, mas o que faz de nós pessoas com razão e inteligência, com sentimentos e paixão. Os afetos são indispensáveis para que pessoas, famílias e sociedade desfrutem da paz, da segurança e da alegria.
Deixemo-nos guiar, uma vez mais, pelo Papa Francisco, na sua Encíclica “Dilexit nos” sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus. Quando se acentuam os conflitos, torna-se imperioso dar largas aos afetos, ao diálogo, ao cuidado do outro, ao respeito das convicções alheias, parafraseando o Cardeal Tolentino Mendonça, importa dar espaço para que o outro seja. É essencial valorizar o coração, a inteligência emocional, tudo quanto faça humanizar, aquecer e iluminar a razão abstrata, fria e indiferente.
António Damásio, no Erro de Descartes, põe evidência os sentimentos (e o amor como sentido de fundo, alicerce e fundamento dos demais sentimentos): o que sentimos está antes do que pensamos. Se perdermos a dimensão afetiva, acertaremos mais friamente em algumas das nossas escolhas, mas perder-nos-emos noutras decisões, paralisando e tornando-nos indiferentes aos outros, ao que são, ao que pensam e aos sentimentos que desenvolvem. António Damásio dá um exemplo que ilustra bem o que afirma: um homem ferido gravemente no cérebro, perde os mecanismos da emoção… mantém o carro seguro numa estrada coberta de gelo, vendo outros a despistarem-se, não travando nem guinando, mas logo a seguir não consegue decidir-se o dia da próxima consulta, terça ou quarta-feira, analisando razões a favor e razões contra, sem tomar uma decisão, paralisando.
Deixemos falar o Papa Francisco. “É necessário recuperar a importância do coração quando nos assalta a tentação da superficialidade, de viver apressadamente sem saber bem para quê”. Prossegue na mesma urgência: “Neste mundo líquido, é necessário voltar a falar do coração… Falta o coração… Ao não se dar o devido valor ao coração, desvaloriza-se também o que significa falar a partir do coração, agir com o coração, amadurecer e curar o coração. Quando não se consideram as especificidades do coração, perdemos as respostas que a inteligência por si só não pode dar, perdemos o encontro com os outros, perdemos a poesia. E perdemos a história e as nossas histórias, porque a verdadeira aventura pessoal é aquela que se constrói a partir do coração. No fim da vida, só isto contará. É preciso afirmar que temos um coração e que o nosso coração coexiste com outros corações que o ajudam a ser um ‘tu’. É necessário que todas as ações sejam colocadas sob o ‘controle político’ do coração, que a agressividade e os desejos obsessivos sejam acalmados no bem maior que o coração lhes oferece e na força que ele tem contra os males; que a inteligência e a vontade sejam também postas ao seu serviço, sentindo e saboreando as verdades em vez de as querer dominar, como algumas ciências tendem a fazer; que a vontade deseje o bem maior que o coração conhece, e que a imaginação e os sentimentos se deixem também moderar pelo bater do coração”.
“Em última análise, palavras do Papa Francisco, poder-se-ia dizer que eu sou o meu coração, porque é ele que me distingue, que me molda na minha identidade espiritual e que me põe em comunhão com as outras pessoas”.
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/32, n.º 4808, de 25 de junho 2025,



