O mundo caminha a alta velocidade para o abismo, e nós, seres habitantes deste planeta, continuamos a viver banhados pelo nosso egoísmo.
Guerra, fome, sede, solidão… nada importa desde que “eu” esteja bem! Enquanto o outro não for a minha prioridade, a avalanche de injustiça e maldade não vai abrandar.
Sobre o dia do famoso apagão, muito se pode dizer e pensar. Em primeiro lugar, lamentar as vidas que, infelizmente, se perderam devido à falta de eletricidade.
O apagão veio mostrar a nossa dependência brutal pela internet e telemóveis, milhares e milhares de pessoas a “arrancar cabelos” por estarem “isolados” do mundo, diziam eles… os assaltos aos supermercados de forma descontrolada! Um cenário dantesco porque se falava numa falha de energia que poderia durar 72horas, 3 dias!
Eu preferi olhar para as coisas de outra forma.
O apagão mostrou-nos a importância da vida em comunidade, o espírito de entreajuda, mostrou-nos que somos vulneráveis e que vivemos demasiado dependentes por coisas que, antigamente, não faziam a mínima falta! E deixámos de dar importância àquilo que, verdadeiramente, importa!
Há quantos anos não se viam esplanadas cheias de gente, a conversar e a conviver com as pessoas com quem partilhavam a mesa, em vez de cada um estar ao telemóvel?!
Há quanto tempo não nos apercebíamos que, numa emergência, o único a quem poderíamos recorrer era ao vizinho? Aquele que, se calhar, nunca tínhamos dado por ele devido ao nosso egocentrismo?
Há quanto tempo deixámos de dar valor ao rádio a pilhas, velhinho, porque é uma chatice ter de ir sintonizando rádios em busca do que nos apetece ouvir, em vez de ir diretamente selecionar no Spotify?
Mas, para além de tudo isto… e aquelas pessoas que vivem, diariamente, sem possibilidade de ter eletricidade em casa, e sem água, que não conseguem ter como fazer refeições, não conseguem aquecer a casa, que não conseguem ter o mínimo de condições de habitabilidade…. Existem milhares de pessoas que vivem em apagão permanente! Milhares e milhares de pessoas que passam verdadeiras dificuldades, isoladas do mundo, porque todos os outros, em redor, continuam a viver no seu pequeno mundo, no seu pequeno ecrã, e são incapazes de ver, de ir ajudar!
O apagão, tal como o COVID-19, mostrou-nos que precisamos uns dos outros. Em ambas as situações, esquecemo-nos rapidamente do altruísmo, do outro.
O mundo está a dar sinais que é urgente mudar a nossa mentalidade, a nossa forma de ser e de viver em comunidade… entretanto, enquanto continuamos na mesma, muitos são os que continuam sem luz, sem água, sem comida, e por muito mais que 72 horas!
Raquel Assis, in Voz de Lamego, ano 95/26, n.º 4803, de 14 de maio 2025



