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E agora? Agradecer e confiar

E agora? Esta é uma pergunta recorrente após um acontecimento significativo para uma comunidade, um país, para o mundo. Pergunta várias vezes repetida, com esta ou outra formulação, com a morte do Papa Francisco, figura insigne da Igreja e do mundo do nosso tempo. Numa época de massificação dos meios de comunicação social, nas suas diversas plataformas, o Papa Francisco, parece inegável, conseguiu chegar aos recantos do mundo, indo como seu desejo, às periferias geográficas e existenciais.

A vida, o tempo e a história são marcados por etapas, momentos, avanços e recuos. Nada se repete, mas há acontecimentos que parecem repetições do passado ou, pelo, menos, similares, sinal que a memória não perdurou e não se aprendeu com os erros. Porém, os intervenientes são outros e as circunstâncias também não são iguais, pelo que não há repetição, quando muito similitude. Há receios que se regrida depois do que se considera um grande avanço. Assim na Igreja, assim na sociedade! Vamos questionando, por exemplo, como é possível que, de um salto civilizacional, voltem nacionalismos e o propósito de ressuscitar impérios.

Ao longo da história, houve momentos de tal forma luminosos, significativos, revolucionários ou tenebrosos que deram lugar a uma mudança de época.

Vivemos um pouco a sensação de orfandade pela morte do Papa Francisco que, em diferentes momentos, se referiu também a uma mudança de época. Marcou pessoas de todas as latitudes e de todos os estratos sociais. Uma brisa que inundou a Igreja e contagiou pessoas da cultura, da política, do desporto. Proximidade e afetividade, palavras e gestos de ternura, de compreensão e reconciliação, na promoção de uma cultura de diálogo e de encontro, combatendo a indiferença e procurando eliminar os muros que excluem e matam.

Nas palavras de Bento XVI, a expansão do cristianismo não se faz por proselitismo, mas por atração. É fácil perceber que o Papa Francisco procurou viver e expressar a alegria de ser cristão, atraindo e contagiando. Não deixando ninguém indiferente.

Agora que chegou ao fim o seu pontificado, prontificam-se os profetas da desgraça, prevendo que os avanços terão um limite ou se regressará a outros tempos. Na verdade, houve aqueles que nem lhe concederam o benefício da dúvida e cedo contestaram o seu magistério, com medos de perderem regalias ou relevância. Ninguém sabe. Um novo Papa será eleito. Será uma surpresa. Por mais vaticínios que se façam, no final haverá os encantados e os desiludidos e os que farão conciliar a eleição com profecias do passado. Quando o papa Bento XVI foi eleito, houve desilusão para muitos, julgando que desta forma a Igreja se encerrava novamente na doutrina e na vigilância. Apesar de muitas resistências, aproximou a Igreja da cultura, da ciência e fez-nos centrar em Cristo e d’Ele partir, com o ensejo de recristianizar a Europa. As suas viagens apostólicas, nomeadamente a Portugal, mostraram a sua timidez, mas também a sua sabedoria e proximidade e facilidade em falar simples e percetível em todos os ambientes e contextos. Não escondeu os problemas dentro da Igreja, concretamente as marcas da sugidade e do pecado daqueles que deveriam ser cuidadores. Foi a humildade de Bento XVI, ao resignar, que permitiu a eleição do Papa Francisco.

Nos últimos dias vamos sendo inundados por sugestões de filmes e teorias da conspiração, de jogos políticos e de bastidores. É possível que haja conversas e alguns alinhamentos, mas, como no passado, também agora vamos ser surpreendidos. Há espaço para a oração e para a sabedoria daqueles que têm a missão de eleger o novo Papa. Cabe-nos rezar, agradecer os pontificados dos últimos Papas e confiar no discernimento dos homens e na ação do Espírito Santo. Atrás não se volta e não regressaremos ao passado. Cristo é presente e chama-nos, agora, a viver, a comprometer-nos, a agir, a torná-l’O presente, na alegria, na bondade e na misericórdia com que contagiamos os outros.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/24, n.º 4801, de 30 de abril 2025

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