HomeDestaquesDesbaratar os inimigos

A oração nem sempre é fácil. Exige persistência e até luta. Luta com os nossos medos e demónios. Se tem a ver com a vida, com a nossa vida, obviamente será caracterizada pelos nossos anseios, preocupações, adversidades, alegrias. A oração que nos ensina Jesus leva-nos à confiança em Deus que é Pai e nos ama infinitamente.

Na semana passada víamos que a oração não é um chorrilho de intenções intelectuais, mas a expressão do que nos vai na alma, no propósito firme de estar ligada à vida, na predisposição, não que Deus faça a nossa vontade, mas que seja feita a Sua vontade, nos ilumine nas nossas escolhas e nos dê o ânimo para concretizar o que pedimos na oração, quando esta é oração de súplica.

No episódio veterotestamentário, sobre o qual propus a reflexão de há oito dias, a narração de uma batalha dos israelitas contra os amalecitas (cf. Ex 17, 8-13). O grande líder de Israel, Moisés, dizia a Josué, seu discípulo e sucessor: «Escolhe alguns homens e amanhã sai a combater Amalec. Eu irei colocar-me no cimo da colina, com a vara de Deus na mão».

Oração de súplica e intercessão. Oração que implica e compromete no campo da batalha. As mãos levantam-se para Deus, de Quem nos vem o destemor, a confiança, a coragem, o discernimento, mas igualmente as mãos que pegam na “espada” e vão para o campo da batalha, estão no mundo para viver, para realizar sonhos, para percorrer caminhos que nos salvam, nos realizam como pessoas, nos resgatam da solidão, do mal e da morte, nos congregam como irmãos, para seguirmos juntos e nos entreajudarmos.

Temos, também nós, de desbaratar os nossos inimigos. Os nossos inimigos não são os outros. Os nossos inimigos estão cá dentro da nossa casa, do nosso coração: o egoísmo, o ódio, a inveja, o ciúme doentio e possessivo, a vontade, por vezes férrea, de vingança, de retaliação! Paguemos o amor com amor (São João da Cruz). O amor que Deus nos tem, revelado em Jesus Cristo, como pleno e incondicional, há de conduzir-nos ao amor aos outros, na fidelidade à Sua vontade.

A oração sustenta, alimenta, amadurece a fé. A fé insere-nos na vida divina. Pelo Batismo, somos imersos na morte e na ressurreição de Cristo, morrendo para o pecado e tornando-nos novas criaturas. A oração faz-nos, em todo o tempo, também ou sobretudo nas adversidades, permanecer firmes nesta vida nova, que recebemos pela fé, na água e no Espírito Santo, em Igreja.

Quando amamos identificamo-nos com a pessoa amada. Sintonizar, sincronizar vontades, a nossa à da pessoa amada, para sermos (mutuamente) fiéis ao que sentimos pela pessoa e ao que ela sente por nós. Então temos que a escutar, não apenas ouvir. Não podemos adivinhar o que sente, o que deseja, o que a torna confortável e segura, se não prestamos atenção, com os olhos, com os nossos ouvidos, com o coração. Ama e faz o que quiseres (santo Agostinho). Amar é como se bebêssemos da mesma água, nos alimentássemos do mesmo pão. Isso é possível acolhendo o outro (e o Outro) como é, com a sua história, com os seus dramas e com as suas qualidades.

A oração dilata o nosso coração para acolhermos Deus. A Sua Palavra ajuda-nos a perceber o Seu amor. A oração e a Palavra de Deus dão forma à nossa fé, revelada e encarnada, em plenitude, em Jesus Cristo. A fé que nos salva faz-nos irmãos, insere-nos na mesma família, compromete-nos com todos, a começar pelos mais frágeis e por aqueles que Deus coloca mais perto de nós para cuidarmos com fidalguia.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/52, n.º 4829, de 3 de dezembro de 2025

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