HomeDestaquesDeixar Deus ser o centro

Poderá ser mais fácil pensarmos primeiro em nós e querermos ser o centro.

Colocar Deus no centro faz parte da nossa identidade cristã.

Colocar Deus no centro é agir do mesmo jeito que Jesus.

Colocar Deus no centro implica dar primazia ao próximo. Adão e Eva esqueceram que o centro era Deus e não eles!

A Quaresma permite, de forma muito acentuada, descentrar-nos de nós, para colocarmos Deus no centro e consequentemente nos predispormos à atenção, ao cuidado e ao serviço aos irmãos.

Na sua mensagem para esta Quaresma, Leão XIV usa dois verbos, que são dois compromissos, escutar e jejuar, juntos, para constituirmos e aprofundarmos a comunidade que somos, irmãos em Jesus Cristo, Igreja. A docilidade para escutar a Palavra de Deus, deixando-nos dulcificar pela presença divina e lermos a realidade, o mundo, com os olhos com que Deus nos ama, com que Deus a todos ama e considera filhos, faz-nos reparar nos outros. Quanto mais dóceis à palavra de Deus, mais disponíveis para escutar o grito e o sofrimento dos irmãos. Também Deus escuta o Seu povo, ouvindo os seus clamores, envia-lhes Moisés para os libertar da escravidão do Egipto e envia-nos o Seu próprio filho, Jesus, para nos redimir e nos reconduzir ao Seu coração de Pai.

O jejum e a abstinência implicam o corpo, oportunidade para percebermos as necessidades essenciais, não apenas as nossas, mas sobretudo as carências e as fomes dos outros. Esta prática incentiva-nos a escutar os outros e a ver os seus sofrimentos. É uma tradição que nos recoloca na direção de Deus, “é útil para discernir e ordenar os ‘apetites’, para manter vigilante a fome e a sede de justiça, subtraindo-a à resignação e instruindo-a a fim de se tornar oração e responsabilidade para com o próximo” (Leão XIV).

O “eu” ocupa tanto espaço que nos faz esquecer ou desprezar o “tu”. E sem tu não há nós. Colocar-nos no centro faz com que os outros se façam distância e se tornem adversários ou servos. Na verdade, Deus não nos faz concorrência, é de outra ordem, é puro amor, amor que liga e religa, que salva, que nos faz família. Quando nos perdemos de Deus e O excluímos, deixamos de ter um Pai comum, deixamos de ser irmãos e não mais haverá quem seja garantia de igualdade. Colocando Deus no centro, reconhecendo-O, em Cristo, como Pai, isso faz de nós irmãos. Desta forma, já não somos adversários, somos da família, pertencemo-nos. É o próprio Jesus que nos diz: já não vos chamo servos, mas irmãos.

Nas Suas palavras e nos Seus gestos, na Sua vida, Jesus mostra-nos como colocar Deus no centro. Na verdade, em tantas ocasiões, vemos como a intimidade e cumplicidade com o Pai anima (dá alma) a Jesus e predispõe-O ao sofrimento, dando-Se por inteiro a favor de todos, preferencialmente dos mais frágeis. O Seu alimento é fazer a vontade do Pai e são seus parentes, irmãos, irmãs, mãe, pai, os que escutam a Palavra de Deus e a poem em prática.

Algumas parábolas ilustram bem o coração misericordioso do Pai e como Jesus Se alimenta, vive e operacionaliza este amor na doação plena àqueles que encontra no Seu caminho. A parábola do Bom Samaritano desafia-nos a voltar-nos para os irmãos! A parábola do filho pródigo expressa a misericórdia de um Pai que não se importa de partir a cara, dando prevalência ao perdão, tradução e concretização do Seu amor. O encontro com a Samaritana faz-nos ver que Jesus dá primazia à pessoa, antes de se preocupar com a “imagem” ou com o pecado desta mulher. A refeição em casa de Zaqueu ou em casa de Levi ou sentando-se à mesa com publicanos e pecadores, desvaloriza completamente a suposta “impureza” do contacto com “esta gente”. No alto da Cruz, no momento de maior drama, Jesus continua a olhar e a reparar em nós, a dar-nos Maria por Mãe e a partilhar a Sua Mãe connosco e, num último suspiro, regressa ao centro da Sua vida, à Sua origem: Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito!

Quando Deus é o nosso centro, identificando-nos com a Sua vontade, aprendemos a colocar os outros em primeiro lugar e quando isso acontece até os nossos sofrimentos são relativizados e muitas vezes até nos esquecemos que estávamos doentes! Quando nos centramos em nós, tendemos a agigantar os sofrimentos que nos apoquentam!


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/16, n.º 4841, de 11 de março de 2026

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