Duas páginas da Sagrada Escritura, bem sinalizadas pelo nosso Bispo em Tabuaço, a 8 de julho, nos meus 25 anos de sacerdócio, e no dia 26 de julho, para a celebração do Crisma. O texto do dia 8, trazia-nos a figura de Jacob e logo D. António nos fez ver a atitude de Abraão diante de Deus para salvar a cidade de Sodoma. Por coincidência, o texto da primeira leitura do dia 26, na Eucaristia vespertina do Domingo XVII do Tempo Comum (ano C) faz-nos recuar a Abraão e à referida oração de intercessão (Gén 18,20-32).
Sublinha D. António: “Abraão é visto no papel do orante que negoceia com Deus a salvação de Sodoma. A sequência da intercessão de Abraão lembra o procedimento habitual nos mercados do Médio Oriente, em que o cliente faz sucessivas tentativas para baixar o preço do produto que pretende adquirir. Abraão faz seis tentativas: começa por propor 50 justos pela salvação de toda a cidade; passa depois para 45, depois para 40, depois para 30, depois para 20, finalmente 10. Vê-se que não havia nenhum, e a cidade, com todos os seus habitantes, é destruída (Génesis 19,24-25). Mas ficam desde aqui já em aberto duas coisas: a primeira é que, como referem os doutores do Talmude, não se pode deixar Deus sozinho, como fez Abraão, que se foi embora (Génesis 18,33); a segunda é que, para poder atender a oração de Abraão e a nossa, terá Deus de enviar ao nosso mundo um justo verdadeiro, «Jesus Cristo Justo» (1 João 2,1). É Ele, na verdade, o nosso Redentor e Salvador” (in Mesa das Palavras).
Nas duas ocasiões, D. António relevou a necessidade de não deixarmos Deus sozinho, não nos cansarmos de rezar, não nos cansarmos de interceder pelos outros. Abraão desiste antes do tempo, parou nos dez justos. Ver-se-á, depois, que por um justo, o Justo por excelência, Jesus, Deus salva a humanidade inteira.
Por sua vez, Jacob luta até vencer Deus. Não se cansa, não desiste, mesmo sacrificando-se. Mas nada como ler o texto: “Jacob levantou-se de noite, tomou consigo as duas esposas, as duas servas e os onze filhos e atravessou o vau do Jaboc. Ajudou-os a passar a torrente com tudo o que possuía e ficou para trás sozinho. Então um homem lutou com ele até ao romper da aurora e, ao ver que não podia dominá-lo, atingiu-lhe a articulação da coxa, de modo que o tendão da coxa de Jacob se deslocou, enquanto lutava com ele. O homem disse-lhe: «Deixa-me ir, que já raiou a aurora». Mas Jacob respondeu-lhe: «Não te deixarei, enquanto não me abençoares». O homem perguntou-lhe: «Qual é o teu nome?». Ele respondeu: «Jacob». Então o homem disse-lhe: «Já não te chamarás Jacob, mas Israel, porque lutaste com Deus e com os homens e saíste vencedor». Pediu-lhe então Jacob: «Rogo-te que me reveles o teu nome». Mas ele respondeu: «Porque queres saber o meu nome?». E abençoou-o. Jacob deu àquele lugar o nome de Penuel, «porque – disse ele – vi a Deus face a face e a minha vida foi salva». Já nascia o sol, quando Jacob atravessou Penuel; e manquejava de uma coxa. Se os israelitas, até ao presente, não comem o tendão que há na articulação da coxa, é porque Jacob foi atingido nesse tendão”. (Gn 32, 22-32).
Jacob força a bênção de Deus, não desistindo de lutar, tornando-se um exemplo para todos nós, na oração como na vida. Concluamos com as palavras do nosso Bispo, na proposta de reflexão para o último Domingo, seguindo o Evangelho proposto (cf. Lucas 11,5-8), em que um discípulo pede a Jesus que os ensine a rezar. Ensinando-lhes a oração do Pai-nosso, fala-lhes também da constância da oração: a atitude do amigo que de noite bate à porta do seu amigo, e não desiste até ser atendido. Este quadro mostra que a oração cristã não é apenas emoção passageira, mas a respiração permanente da alma, que não se extingue perante as adversidades, nem sequer durante a noite!”.
A oração liga-nos a Deus, confiando n’Ele como Pai, e liga-nos aos outros e compromete-nos com eles, filhos de Deus como nós.
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/36, n.º 4812, de 30 de julho 2025



