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Da Páscoa à Eucaristia

A Eucaristia é instituída por Jesus no decorrer da Última Ceia. Isto é o Meu corpo, entregue por vós. Isto é o Meu sangue derramado por vós. Fazei isto em memória de Mim. Porém, o conteúdo da Eucaristia, o sacramento enquanto tal, deriva e é possível na Páscoa de Jesus, no mistério da Sua morte e ressurreição.

Para muitos, a Eucaristia, como a Páscoa ou a Semana Santa, não passa de uma repetição. Repetem-se as palavras, os gestos, uma rotina que, pouco a pouco, não compromete e não nos enleva. Se “assistir” à Missa for mera tradição ou por um medo patológico de que no final Deus exista, então a repetição é automática, enfadonha e desgastante. Assiste-se, estamos lá, mas é como se não estivéssemos, assiste-se a um ritual, uma cerimónia, com o propósito de sermos premiados no final ou, pelo menos, não corrermos o risco de irmos para o inferno.

A Eucaristia, como toda a vida cristã, deve ser alegria, pois é um encontro com um amigo, o melhor amigo, o encontro com Alguém que não falha e nunca nos falha. Uma fé verdadeira, autêntica, madura, leva-nos a querer estar com Ele e, então, as palavras são sempre novas e os gestos atuais.

Quando dizes a alguém “amo-te”, não o dizes uma vez, mas milhares de vezes. Cada vez que o dizes, sentindo, dizes sempre de novo. Tu precisas de o dizer e a pessoa que tu amas e que te ama precisa de ouvir uma e outra e outra vez ainda. Não se trata de cronologia, de memória ou esquecimento, mas de uma sintonia que precisa de palavras e gestos permanentes e atuais. Não se cansa de ouvir quem escuta e não se cansa de dizer quem ama e assim avivam e celebram um compromisso que não quer esquecimento nem finitude.

A Semana Santa, a Páscoa, cada Eucaristia, para quem ama, para quem vive e se alimenta da fé, para quantos acreditam na morte de Jesus, como dádiva perene a favor da humanidade, mostrando-nos um caminho de redenção, de comunhão, de alegria, um caminho de bondade e ternura, não há repetição de acontecimentos ou palavras, há celebração e memorial; a cada instante se assume o amor que Deus nos mostra em Jesus. Cabe-nos responder, amando-O, acolhendo-O, tornando-O vivo e presente na nossa vida.

Se acreditamos que Ele morreu por nossa causa e que a sua vida não foi em vão, não ficou cristalizada no passado, no dia da sua crucifixão, morte e sepultamento, mas que Ele está vivo, significa que hoje Jesus está no meio de nós, presença viva, no Seu corpo e sangue, no Sacramento da Eucaristia, Páscoa que não se repete, mas que mistericamente nos é possível viver hoje: ali está Jesus e ali estamos nós com Ele e uns com os outros!

Também hoje Jesus ressuscita. A ressurreição de Jesus torna-se palpável, visível, atual para cada um de nós. Em cada Eucaristia, celebramos a Páscoa. Em cada Páscoa, a Eucaristia é o centro e o cume, para onde nos encaminhamos e de onde partimos, como lembrava Bento XVI, no Porto, no dia 14 de maio de 2010.

Quando amas, queres que o tempo não passe e fazes tudo para voltares a encontrar-te com a pessoa amada. Assim é Eucaristia. Esta só é enfadonha, repetição e rotina, e demorada, para quem não ama, para quem o encontro não passa de um ritual do passado e cada minuto é apenas para cumprir uma obrigação.

Vale a pena recuperar uma oração de são João Maria Vianney: “Eu Vos amo, meu Deus, e o meu único desejo é amar-Vos até ao último suspiro da minha vida. Eu Vos amo, Deus infinitamente bom, e prefiro morrer amando-Vos que viver um só instante sem Vos amar. Eu Vos amo, meu Deus, e só desejo o Céu para ter a felicidade de Vos amar perfeitamente… Meu Deus, se a minha língua não puder estar sempre a dizer que Vos amo, que o meu coração o diga tantas vezes como quantas eu respiro”.

Ele segue connosco, partilha a Sua vida connosco, não é história do passado, mas hoje, nos sacramentos, Jesus dá-Se de novo, podemos encontrá-l’O, o Céu está ao nosso alcance, pois é Ele na verdade a nossa vida, o nosso Céu.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/24, n.º 4849, de 6 de maio de 2026

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