Uma história de vida, onde ressaltam o analfabetismo e a “Guerra Colonial” …
“Joãozinho, preciso que me escreva uma carta para o meu irmão!” Era assim que uma Senhora, vizinha, analfabeta, me tratava e “convocava” para trocar noticias com o irmão que cumpria o serviço militar na “Guerra Colonial”. Estávamos no início da década de 60, teria 14/15 anos, viviam-se tempos difíceis na Sociedade Portuguesa…
O analfabetismo era um estigma da população, onde apenas os mais jovens começavam a frequentar a Escola. Era o meu caso, já no Liceu, que por esse facto a Senhora me pedia para lhe escrever as cartas. Foram “umas quantas”, que me “roubaram” umas horas de brincadeira, ou a jogar a bola, mas que nunca recusei. São recordações que me marcaram pelas condições de vida na época e que a memória nunca esqueceu. Quando solicitado, deslocava-me a sua casa, perto da minha, um humilde rés do chão, onde me fornecia um banquinho tosco para me sentar, uma tábua que colocava sobre os joelhos, na qual punha uma folha de papel de carta e um envelope. A caneta e a capacidade de escrita eram minhas.
O texto nunca era ditado de uma forma contínua, porque havia “solicitações” a qualquer momento. Ora o marido a rogar algum apoio no trabalho, o cuidado com filhos pequenos, ruídos na rua que requeriam atenção …, deixavam as frases a meio, que eu com a minha intuição ia terminando. Sempre que interrompia uma frase, vezes sem conta, no regresso perguntava: – Como é que está Joãozinho? E eu lia o texto que tinha iniciado e a conclusão que lhe tinha dado. Às vezes dizia – está bem! Outras, mandava corrigir algum pormenor, sobre notícias locais e saúde dos Familiares. A terminar, um beijo e o desejo de muita saúde e encorajamento para que voltasse breve.
As intermitências da escrita, que demoravam longos minutos, davam para ouvir os outros rapazes lá fora a brincar, enquanto eu cumpria uma “missão” … Depois de muitos “balanços”, concluída a escrita da carta, eu lia de princípio ao fim, merecendo a aprovação da Senhora. Escrito o endereço e o remetente, colado o selo, normalmente também seguia viagem no interior do envelope uma nota de 20 escudos (muito valiosa na época).
Acabada a tarefa, lá vinham os agradecimentos e o pedido para uma próxima vez …. A carta seguia o seu destino e na volta do Correio era necessário ler as notícias. Nesta parte era mais fácil arranjar um leitor, motivo pelo qual nem sempre era eu o escolhido. Mas também me tocava voltar a ler, quando uma nova missiva fosse escrita, para dar resposta aos assuntos focados.
O tempo passou e o Militar … cumprida a sua missão, regressou são e salvo. E a sua Irmã… continuou a boa vizinhança, no seu estilo habitual, cordial e sociável, a chamar-me Joãozinho até aos últimos dias da sua vida (2022)!
Jamais esqueci este “encargo” que por altura do NATAL se tornava muito mais sensível e comovente, por força das mensagens dos Soldados através da Televisão. Apesar disso, naquela época, nem me passava pela cabeça que meia dúzia de anos após, como militar, também poderia ser um combatente! Mas, quis o destino que, quando esse tempo chegou (1969), ainda em tempo de guerra, tivesse a felicidade de não ser mobilizado para a “Guerra do Ultramar” (1961-1974) …
Os anos passaram e em 1974 a Pátria Portuguesa haveria de tomar um novo rumo …
Votos de Feliz Natal para todos.
João Duarte Rebelo “Festa”, in Voz de Lamego, ano 96/06, n.º 4831, de 17 de dezembro de 2025



