Há muitas coisas difíceis de se fazer ao longo da vida.
Pelo caminho vamos tentando ultrapassá-las, mas nem sempre conseguimos, a acabamos por contornar apenas o “obstáculo”.
Confiar é algo que exige muito de cada um de nós. Não me refiro ao “confiar” de forma leve e apenas aparentemente. Confiar, pura e verdadeiramente em alguém é algo muito difícil de alcançar.
Ter confiança significa ter a capacidade em colocar a nossa vida nas mãos de outro, significa acreditar de olhos fechados nas palavras, nas ações e nos pensamentos do outro.
E como fazê-lo?… quando, muitas vezes, nem a nós próprios conhecemos, no fundo, nem em nós próprios confiamos? Como transpor isso para outro?
Um dos principais obstáculos em confiar no outro é porque, também nós, não somos confiáveis, e vemos no outro o nosso espelho.
Claro que é difícil acreditar na sinceridade e pureza de alguém, com tanto que vemos e ouvimos, o mais provável é que nos estejam a enganar, que estejam a encenar perante a nossa necessidade em confiar no que nos dizem.
Mas, deixando de ter a capacidade de acreditar nas pessoas, se passarmos a desacreditar tudo quanto nos dizem e fazem, passamos a ter, apenas, relações artificiais, programadas, ensaiadas, em que não existe o fator humano, o fator do amor.
Só crescendo enquanto pessoas, só nos tornando, nós próprios, confiáveis, é que também o poderemos exigir aos outros, e poderemos, através das nossas ações, que outros passem a ter a mesma capacidade.
O amor, a confiança, a verdade, a justiça… existem. Não são coisas extintas ou da televisão. A sociedade vai-se moldando à medida que as pessoas se transformam. O sentido em que essa transformação ocorre é da nossa responsabilidade… se no sentido da decadência, ou no sentido da purificação.
Esta mudança está ao nosso alcance, e o início do Tempo da Quaresma é um momento propício para que consigamos crescer como pessoas, e consigamos amar, confiando, como cristãos.
Raquel Assis, in Voz de Lamego, ano 96/13, n.º 4838, de 18 de fevereiro de 2026.



