Confiar em quem?
Sem confiança não há vida. Ou pelo menos, vida com qualidade! Desde que nascemos que começamos a confiar. Pomo-nos de pé e confiamos que não nos deixam cair. Se caímos, protestamos, choramos, fazemos birra. E lá vem a Mãe ou o Pai engalhar-nos, prometer que não volta a acontecer, que estará por perto e mais atento/a. É na base da confiança que crescemos e nos envolvemos com a família, com os amigos, com os professores, com o mundo dos adultos. E mesmo a desconfiança tem a ver com confiança, ainda que seja resultado de algum momento em que fomos defraudados nas nossas expectativas. Aqueles que deveriam estar do nosso lado deixaram-nos pendurados, desiludiram-nos e agora demoramos a voltar a confiar.
Pior que a morte é o desencanto, a desilusão, a falta de fé, de esperança, de horizonte. «Nada é mais triste que a morte de uma ilusão» (Arthur Koestler). «Uma alma triste mata mais depressa que um germe» (Steinbeck). Parafraseando estas duas expressões, que encontramos por acaso, o pior que nos pode acontecer é não ter ninguém em quem confiar. Vale como um absoluto: quando não temos ninguém para desabar, para festejar, para trocar impressões, que nos faça sentir em casa e ninguém para entregar a nossa vida, a nossa alma, sabendo que nos guardará para sempre, a vida deixa de ter sentido e sabor. Em definitivo, só Deus é garante da nossa existência para sempre. Mas na história precisamos de confiar e precisamos que confiem em nós, mesmo e apesar dos desencontros e deceções.
As últimas palavras de Jesus são de confiança total e definitiva: «Pai nas Tuas mãos entrego o Meu espírito». Depois de longas horas de provação, Jesus permanece confiante na bondade de Deus. A provação foi violenta. Traído pelos amigos, abandonado por (quase) todos. Injuriado. Sujeito ao escárnio e aos escarros, à violência gratuita, esbofeteado e chicoteado, esgotado pelas agressões e pelo peso da cruz, não resta mais nada! Pai, se é possível… mas não Se faça a minha, mas a Tua vontade… Cumpra-se a vida e a história e o amor, até ao fim, sem alívio, nem desculpas, nem justificações.
Não temais! Vinde a Mim todos os que andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei! Não temais, Eu venci o mundo! Não temais, pequenino rebanho! Eu estarei convosco até ao fim dos tempos. Ide, Eu vos envio como cordeiros para o meio dos lobos!
Há tantas situações para as quais não há uma explicação lógica. Há momentos em que apetece desaparecer. Há circunstâncias que nos tiram do sério. Gostávamos que tudo fosse clarividente, mas a vida, na sua simplicidade, é complexa e nós, a acrescentar, complicamos o simples e simplificamos o que é delicado! Temos de compreender que não somos Deus, mas Manuel, Artur, Maria, Antónia. Não está ao nosso alcance explicar todos os mistérios da existência. Saber que Deus é Deus e confiarmos-Lhe a nossa vida para que à noite possamos deitar e repousar com a certeza que Ele é Deus e que há muita vida e muita história em que não somos nem heróis nem deuses nem demónios, mas simplesmente pessoas, de carne e osso, com sonhos e com limitações, com sentimentos e emoções, com mistério!
Na maioria das vezes não precisamos que resolvam as dificuldades do nosso caminho! Que seria a vida sem sal, sem esforço, sem dedicação, sem renúncia, sem compromisso, sem obstáculos? Precisamos sempre de colo! Da Mãe, dos amigos, da família, de quem nos prometa que vai correr bem, ainda que tenhamos de enfrentar os nossos demónios! Não estaremos sós. Temos Mãe (Papa Francisco em Fátima), temos quem nos acompanhe e nos ajude a erguer, temos um olhar e um sorriso que nos desafia, nos envolve e nos dá força, nos transmite confiança para continuar, apesar de tudo. Jesus lembra-nos que temos Pai e que temos Mãe (D. António Couto em Fátima). A olhar por nós! Podemos prosseguir. Ele não nos deixa sós, não nos abandona à nossa sorte.
Com a Sua vida e sobretudo com a Sua morte e ressurreição, Jesus torna-Se para nós a garantia de que Deus nos ama e nos assegura a vida eternamente, apesar do nosso pecado e dos nossos distanciamentos.
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/32, n.º 4857, de 1 de julho de 2026



