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Como um botão a florir…

Só se vive uma vez! É um refrão bem conhecido que nos desafia a viver bem, a aproveitar o tempo presente, a não nos perdermos em chatices, confusões e distrações! Se a vida são dois dias, há que valorizar cada instante, pela positiva, naquilo que nos faz bem, que nos irmana e nos aproxima, que nos faz felizes e contribui para a felicidade dos outros. Haverá pessoas que passam bem sem os outros e até se sentem felizes na infelicidade alheia. Mas somente porque ainda não descobriram o que é a verdadeira felicidade, a alegria de quem se compraz com a vida, de quem não deve nada a ninguém e pode apreciar o bem que os outros vivem.

Só se vive uma vez, mas morremos várias vezes. E precisamos de ressuscitar outras tantas. De preferência que ressuscitemos mais vezes do que aquelas em que morremos, nem que seja da morte biológica, definitiva para a história e para o tempo tais como os conhecemos. Ao longo da nossa breve existência, precisamos de fazer luto pelo que vamos deixando para trás. Precisamos de deixar morrer o que não nos faz bem, o que nos prejudica o corpo, o coração e a alma. Precisamos de fazer luto de desencontros e de desencantos. Precisamos de deixar morrer relacionamentos que se tornaram doentios, tóxicos. Precisamos de dizer adeus a situações que nos pesam mais do que aquilo que suportamos. Precisamos de nos despedir das idades que nos paralisam, nos amedrontam, nos incapacitam de viver, de amar, de prosseguir, de voltar a acreditar, de voltar a confiar, em pessoas e na vida.

Numa das páginas das epístolas do apóstolo são Paulo, ouvimo-lo proclamar: “Continuo a correr… esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, continuar a correr para a meta, em vista do prémio a que Deus, lá do alto, me chama em Cristo Jesus” (Flp 3, 8-14).

Num sentido mais teológico, mas que serve para quem tem fé e para quem não tem. A esperança impulsiona-nos a agir no presente, a caminhar, a progredir, a resistir às intempéries. A falta de esperança, faz-nos duvidar de nós, dos outros, da vida, do futuro. Sem esperança não há futuro. Para uns, a esperança é provisória, temporal, a prazo, mas nem por isso deixa de ser desafio a arrepiar caminho, a esperança que cada dia seja melhor e que os sonhos vão sendo concretizados. A esperança cristã, não nos descompromete nem nos descentra do compromisso de transformar o mundo em que vivemos, e dar tudo para uma vida com qualidade, englobando também os outros. Em cada desaire, a esperança firme que não estamos sozinhos, Deus impulsiona-nos e há de colocar na nossa vida quem faça o Seu papel, um pai, uma mãe, um amigo, um filho! E, por cada desaire, a certeza que todas as contrariedades hão de ter um fim. Quando um botão flori, brota a alegria, a vida, desponta a esperança. Pode parecer romântico, porém, temos aqui uma metáfora para a nossa vida que corre, umas vezes apressada e sem pausas, outras vezes lentamente, com retrocessos e empecilhos. Em pleno inverno, a amendoeira desponta e faz-nos ver que a invernia não impede a beleza nem a vida! Em plena primavera, a certeza que, por mais pequenos que sejam os botões, hão de germinar, florir e tornar mais belos os nossos campos, jardins, as nossas casas, o mundo. Muitas plantas também passaram pelo inverno, tiveram as suas mortes, um botão que desponta anuncia que ainda há mais vida! Ainda há esperança. Um botão pode fazer a diferença, porque desperta o olhar e a atenção e faz-nos acreditar que há amanhã. A morte dará lugar à ressurreição. Não tenhamos medo de deixar morrer o que nos destrói, deixemos ressuscitar o que nos faz sorrir, viver, o que nos incentiva a agradecer e partilhar.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/21, n.º 4798, de 9 de abril 2025

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