De Portugal aos Estados Unidos: uma ponte feita de palavras
Projeto bilingue em inglês e português liga alunos do Colégio de Lamego e de Massachussets
Há projetos que cumprem objetivos.
E há outros que nos lembram porque ensinamos.
Como professora na Cameron Middle School, em Massachusetts, tive recentemente o privilégio de viver um desses momentos raros: um intercâmbio entre os meus alunos do 7.º ano e os alunos do Colégio de Lamego, em Portugal. Um projeto simples na sua forma, mas sempre transformador no seu impacto.
Tudo começou com pequenos cartões postais.
Deste lado do oceano, os meus alunos escreveram, desenharam, imaginaram. Mas, com a introdução de códigos QR, algo mudou: aquelas palavras passaram a ter voz.
Do outro lado do oceano, os alunos de Lamego não se limitaram a ler, ouviram. Ouviram sotaques, hesitações, entusiasmo. Ouviram pessoas.
Os alunos do Colégio de Lamego responderam: não de forma genérica, mas individual, pessoal, humana. Numa época em que tanto se fala de distância, de tecnologia e de superficialidade, houve aqui algo profundamente autêntico: jovens interessados em conhecer outros jovens.
Mas estes alunos quiseram mais. Apresentaram também um vídeo sobre a sua cidade, a sua história, cultura e identidade.
Deste lado do oceano, em Massachusetts, isso despertou uma curiosidade genuína. Houve perguntas, risos, surpresas. Houve aprendizagem real, daquelas que não se esquecem.
E depois houve aquilo que não cabe nos objetivos curriculares.
Muitos destes alunos de Lamego já foram meus alunos. Já partilhámos a mesma sala, os mesmos desafios, os mesmos caminhos de aprendizagem. Encontrarmo-nos, agora, em margens distintas do oceano, num contexto diferente, mas com a mesma essência. É a prova de que a educação não termina quando se sai da escola. Continua. Transforma-se. E, às vezes, regressa.
É também aqui que o Colégio de Lamego sempre se distingue. Num sistema educativo frequentemente pressionado por resultados imediatos, esta instituição acredita no crescimento contínuo dos alunos, dos professores e da própria comunidade. Um espaço em que aprender não é apenas alcançar metas, mas construir percurso.
Esta troca não foi apenas uma atividade. Foi uma ponte.
Uma ponte entre países, entre línguas, Inglês e Português, entre culturas e entre versões passadas e presentes de quem somos. Uma ponte que lembrou aos alunos, e a mim, que aprender uma língua é, acima de tudo, aprender a relacionar-nos com os outros.
E talvez o mais reconfortante tenha sido isto: perceber que há uma abertura genuína para conhecer o outro, para compreender diferentes realidades, para olhar a diversidade cultural com curiosidade e respeito. Uma disponibilidade que desafia, de forma silenciosa, mas poderosa, tantas ideias erradas que ainda persistem sobre “o outro lado do oceano”.
Talvez sejam eles, estes alunos, quem melhor nos ensina que o mundo é maior, mais próximo e muito mais humano do que, por vezes, acreditamos.
Mara Santos, in Voz de Lamego, ano 96/23, n.º 4848, de 29 de abril de 2026



