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Chave para sair do labirinto

Por estes dias caiu-me nas mãos a seguinte expressão: “Só existe uma saída quando se está preso num labirinto: a vontade” (Fanny Lewald).

Se estás num labirinto, se estamos, a primeira coisa a fazer talvez seja perceber como se chegou ali, procurar um ponto de orientação para não ficar eternamente perdido. Poderá ser útil olhar para o caminho percorrido, avalizar o que se aprendeu, os percalços, as influências, os bloqueios e os medos enfrentados, as causas que nos colocaram nessa situação.

Mais do que julgar e distribuir culpas, importa procurar entender o que posso a fazer. Agora. Como bem disse Ortega y Gasset, somos nós e as nossas circunstâncias. Em todo o caso, o “nós” vem primeiro. As circunstâncias são importantes ou até decisivas, mas não são definitivas. Tantas situações que nos marcam, positiva e negativamente, o meio onde nascemos, a família, os hábitos que nos fazem ou as tradições que nos moldam. Temos que valorar o que depende de nós, ver os passos que temos de dar e as ajudas que temos que solicitar. Enquanto há vida, há caminhos a percorrer. Não somos marionetas nem de Deus, nem dos outros, nem das circunstâncias, por mais adversas que sejam.

Não podemos desperdiçar tempo a arranjar desculpas ou justificações, a lamentar-nos porque fomos injustiçados, a culparmos outros por nos terem dificultado a vida e nos terem “obrigado” a ir por caminhos que não queríamos, porque confiámos demasiado ou simplesmente nos deixamos levar.

No plano da fé, há momentos que são verdadeiramente labirintos. Ora vemos Deus como justiceiro, de Quem temos medo; ora O culpamos por não agir; ora O dispensamos. Jesus veio para nos libertar de demónios e falsos preconceitos, libertar-nos de superstições e medos infernais, veio devolver-nos a vida, ensinar-nos o caminho da bondade, a olharmos para Deus como filhos e não como súbditos, subalternos ou empregados. Assumiu-nos como irmãos, mostrando-nos que somos responsáveis uns pelos outros, pertencemo-nos. A vida foi-nos dada e Ele veio para que tenhamos vida em abundância. No meio do maior sofrimento, Ele é capaz de olhar mais longe, de olhar para as alturas, de perdoar os que Lhe fizeram mal, de desafiar os discípulos a prosseguirem caminho, sem medo e sem ilusões, hão de atravessar tempestades!

Na primeira carta Encíclica, Lumen Fidei, o Papa Francisco, assumindo a herança de Bento XVI, diz-nos que a fé é sobretudo luz, ainda que haja momentos de grande sofrimento, em que a dúvida nos assola e a confiança fica abalada. Com efeito, “a fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho” (n.º 57).

A vida depende em grande parte de ti, umas vezes, pelo rumo que tomas, outras vezes pela capacidade em olhar além das dificuldades e não te deixares abater pelos tormentos. Vale a pena levar a sério o que nos diz santo Inácio de Loyola: «Age como se tudo dependesse de ti, mas consciente de que na realidade tudo depende de Deus». Não esperes que os outros resolvam, se depende de ti! Mesmo quando tudo parece um desastre, não desistas. No Jardim das Oliveiras, Jesus agoniza, vislumbrando as horas duras que estão a chegar, mas arranja forças para prosseguir até ao Calvário, até à Cruz, e arranja coragem para rezar, para perdoar, para desafiar os Seus discípulos a prosseguir a missão de anunciar a beleza da vida e o amor que salva. Ele estará com eles, estará connosco, não nos escondendo as adversidades, contendas e até perseguições.

O célebre psiquiatra brasileiro, Augusto Cury, insiste em que deixemos de ser meros espetadores e sejamos atores, protagonistas da nossa vida, construindo a nossa história. Não deixes que os outros resolvam por ti, não permitas que te façam marioneta, age, vive, luta. Não significa que não contes com os outros, que não recorras a eles, ou que não dependas deles. Não, pelo contrário, só serás feliz com os outros, tendo alguém para amar e sabendo-te amado por alguém.  Porém, não coloques nas mãos dos outros o que deves ser tu a decidires, as escolhas que tens de fazer. Se não fores tu o protagonista da tua história, correndo bem, não terás mérito, correndo mal, vais culpar os outros e o azedume corroer-te-á…

Se estás no labirinto, não esperes que alguém venha para te levar às cavalitas… podes lá ficar a vida inteira… Dá o primeiro passo! Tenta vislumbrar um raio de luz… hás de encontrá-lo em ti. Assim o labirinto, assim o teu coração! A chave está dentro de ti. O exterior pode acelerar ou atrasar, mas só tu podes abrir!


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/11, n.º 4836, de 4 de fevereiro de 2026

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