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Chamamento, seguimento e envio

Jesus chama. Chama-nos a todos. A primeira vocação é a proximidade com Ele. Habitar com Ele. Deixar que Ele nos habite. Ele vem morar connosco, para nos tornar Sua morada, para morarmos com Ele. Vem e segue-me, diz a cada um. Vinde e vede. A minha casa, será também a vossa casa. A minha vida, será também a vossa vida. O meu Pai é vosso Pai também. Meu Deus e vosso Deus. Vinde. Deus precede-nos. O caminho da santidade, a vocação primeira, é o encontro e a proximidade, a vida e intimidade com Deus.

É um chamamento que nos envolve na totalidade. Implica renúncia de nós mesmos, para nos tornamos terra lavrada, revolvida, fresca, fértil, para que frutifique em nós a bondade de Deus. O seguimento implica-nos por inteiro. Não é a prazo ou quando a situação é mais favorável. É um seguimento de todas as horas. Não é para autocomprazimento, mas é um chamamento e seguimento instrumental. Como Pedro, uma vez convertidos, cabe-nos confirmar na fé os irmãos. A luz da fé que nos habita há de encadear-nos com o amor de Deus, sem nos cegar, mas tornando mais límpido o nosso olhar, deixando cair as escamas do preconceito e da presunção, para que possamos reconhecer nos outros a presença de Deus, acolhendo-os e amando-os como irmãos.

O salmo 15 (16) traz-nos a vocação sacerdotal da tribo de Levi. “Digo ao Senhor: ‘Vós sois o meu Deus’. Senhor, porção da minha herança e do meu cálice, está nas vossas mãos o meu destino. Bendigo o Senhor por me ter aconselhado, até de noite me inspira interiormente. O Senhor está sempre na minha presença, com Ele a meu lado não vacilarei. Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta, e até o meu corpo descansa tranquilo”.

Na distribuição de terras pelas 12 tribos de Israel, a de Levi ficou sem terras, porque se dedicaria ao Templo, pelo que as outras tribos assegurariam o seu sustento. É o Senhor Deus a porção que lhe cabe em herança, é n’Ele que confia, a quem se entrega, de Quem espera a bênção.

Foi este o lema sacerdotal que escolhi há 25 anos: o Senhor é a minha herança. Passados 25 anos da ordenação, a 8 de julho de 2000, na Sé de Lamego, pelas mãos de D. Jacinto Botelho, cabe-me, neste ou noutro espaço, agradecer a Deus por todos quantos Ele colocou na minha vida e a quantos caminharam e caminham comigo.

O envio está inscrito no chamamento e agrafado ao seguimento.

Jesus chama-nos para O seguirmos, para vivermos com Ele e para nos enviar a outros. Não há vocação sem seguimento. Não há seguimento de Jesus, sem envio aos irmãos.

A primeira condição, vale para todos os batizados, no chamamento, no seguimento e no envio, é a oração. A ligação estreita Àquele que nos assume como filhos. Sem a ligação ao Pai, em Jesus Cristo, pelo Espírito Santo, não poderá haver ligação aberta e generosa aos outros. A seara é grande. É à minha porta e em minha casa. Mas a minha casa é também o mundo. São os meus vizinhos. Os amigos e os que me provocam azia. A seara é o mundo inteiro, para o qual somos enviados a transformar com o amor de Deus. O dono da Seara não nos faltará. Sempre enviará. Com a oração tomamos consciência desta certeza, predispondo-nos à escuta de Deus e da Sua vontade para nós.

O encontro com o Senhor Jesus há de provocar conversão e adesão. Quem se deixa contagiar pelo Seu amor, deixa-se inundar de alegria e perceberá que não pode ficar de braços cruzados, sentado no sofá. Maria, logo após a anunciação, levantou-se e apressadamente vai para a montanha comunicando a Isabel tamanha alegria, que não cabe em seu coração, e, com a alegria, a disponibilidade para lhe ser prestável em tudo o que seja necessário. Sirva-nos Maria de modelo no seguimento, na alegria que contagia e na pressa em levar Jesus a todo o mundo.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/34, n.º 4810, de 9 de julho 2025

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