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Caminhar, juntos, na esperança

Na mensagem do Papa Francisco para esta Quaresma, dentro do Ano Jubilar, três pontos a ter em consideração: caminhar, fazê-lo juntos, na esperança de uma promessa.

Tal como o povo de Israel, ao longo de quarenta anos, o hiato de tempo de uma geração, também nós, povo peregrino, somos desafiados a caminhar. Como não lembrar as palavras do então Cardeal Mario Bergoglio em vésperas de ser eleito Papa, e posteriormente reafirmadas: prefiro uma Igreja em saída, que tropeça, do que uma Igreja com cheiro a mofo, raquítica, fechada em si mesma, rígida. O caminho faz-se caminhando.

“Não podemos recordar o êxodo bíblico sem pensar em tantos irmãos e irmãs que, hoje, fogem de situações de miséria e violência e vão à procura de uma vida melhor para si e para seus entes queridos. Aqui, surge um primeiro apelo à conversão, porque todos nós somos peregrinos na vida, mas cada um pode perguntar-se: como me deixo interpelar por esta condição? Estou realmente a caminho ou estou paralisado, estático, com medo e sem esperança, acomodado na minha zona de conforto?”

Ficou-nos nos ouvidos a necessidade emergente da sinodalidade da Igreja. Caminhar juntos. Podemos não chegar mais rápido, mas chegaremos mais longe, não deixando ninguém para trás, ajudando os mais frágeis a caminhar também. Sozinhos acabaremos por perder o norte, a orientação, às tantas nem sabemos em que direção continuamos nem a meta a alcançar.

“Caminhar juntos significa ser tecelões de unidade, partindo da nossa dignidade comum de filhos de Deus (cf. Gl 3, 26-28); significa caminhar lado a lado, sem pisar ou subjugar o outro, sem alimentar invejas ou hipocrisias, sem deixar que ninguém fique para trás ou se sinta excluído. Sigamos na mesma direção, rumo a uma única meta, ouvindo-nos uns aos outros com amor e paciência”. E prossegue o santo Padre: “Nesta Quaresma, Deus pede-nos que verifiquemos se nas nossas vidas e famílias, nos locais onde trabalhamos, nas comunidades paroquiais ou religiosas, somos capazes de caminhar com os outros, de ouvir, de vencer a tentação de nos entrincheirarmos na nossa autorreferencialidade e de olharmos apenas para as nossas próprias necessidades… Este é o segundo apelo: a conversão à sinodalidade”.

Caminhemos juntos, na esperança de uma promessa que não engana, pois é sustenta em Deus.  Esta esperança que não engana (cf. Rm 5, 5), caracteriza e preencherá a vivência do Jubileu 2025. A propósito, o Papa Francisco cita o seu Predecessor, Bento XVI, na carta encíclica Spes Salvi: «o ser humano necessita do amor incondicionado. Precisa daquela certeza que o faz exclamar: “Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8, 38-39)».

Nova interpelação papal: “Eis o terceiro apelo à conversão: o da esperança, da confiança em Deus e na sua grande promessa, a vida eterna. Devemos perguntar-nos: estou convicto de que Deus me perdoa os pecados? Ou comporto-me como se me pudesse salvar sozinho? Aspiro à salvação e peço a ajuda de Deus para a receber? Vivo concretamente a esperança que me ajuda a ler os acontecimentos da história e me impele a um compromisso com a justiça, a fraternidade, o cuidado da casa comum, garantindo que ninguém seja deixado para trás?”

A conversão é um caminho. Constante. Mas igualmente inadiável. Conversão a Jesus Cristo e ao Seu evangelho de amor e de perdão, de compaixão e ternura. Não porque sim, mas porque esse é o caminho que nos liberta, nos aproxima uns dos outros, nos irmana, nos humaniza e nos torna verdadeiramente felizes. Deus é misericordioso, compassivo e justo! Cabe-nos fazer a nossa parte, acolher o Seu amor e deixarmo-nos transformar por Ele, pessoal e comunitariamente.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/16, n.º 4793, de 5 de março de 2025

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