Quando se escreve à mão, numa folha em branco ou numa de linhas, com caneta, Bic ou Parker, é possível que haja enganos, erros ou lapsos que é necessário corrigir. Aprendemos na escola primária que, quando nos enganássemos a escrever, deveríamos colocar a palavra ou a frase entre parêntesis, continuando o texto. Alguns, como no meu caso, optámos, posteriormente, por rasurar a palavra ou frase, mantendo-a dentro do parêntesis. Quando faltasse uma palavra, enxertávamo-la, numa espécie de chaveta sobrepondo-a ao texto. Apesar de tudo, as palavras lá decalcadas, apesar de estarem entre parêntesis ou rasuradas, continuavam lá no texto. Nas atas procedia-se do mesmo modo, rasurava-se e no final explicitava-se o que foi rasurado e o que foi acrescentado.
Com as máquinas de escrever, quando uma palavra estava a mais, fora do sítio, ou havia uma frase repetida ou incorreta, voltava-se a passar as teclas com a letra X e assim se apagava ou se escondia a gralha, a palavra, a frase. Entretanto, apareceram os corretores, uma fita que se colocava no correr da máquina e martelavam-se novamente as teclas sobre a palavra ou sobre as frases. Depois passaram a ser mais automáticas ou elétricas e esse sistema de apagar as letras, as palavras ou as frases já estava incorporado. Diria, de qualquer forma, que as palavras erradas ou frases que não queríamos ficavam impressas ainda que não visíveis.
Por certo acontece num caderno de notas ou num diário, com palavras cortadas, rasuradas, disfarçadas, com páginas cheias, com páginas apenas iniciadas, com páginas deixadas em branco para mais tarde colocar algum acontecimento vivido anteriormente, mas a precisar de ser validado ou amadurecido, para melhor o encaixar na sua vida. Por certo, algumas páginas ficaram em branco.
Nestas imagens poderemos, analogicamente, pensar a nossa vida.
Na era dos computadores, já não é necessário rasurar ou disfarçar ou colocar entre parêntesis, ou colocar chamada de atenção do que se riscou ou do que se entrelinhou, basta apagar, voltar a escrever, e imprimir uma folha limpa e sem rasuras. Se necessário, corrige-se e volta-se a imprimir.
Mas isso não dá para a vida. Na minha vida, e na tua, fica tudo impresso. Não é possível apagar memórias, acontecimentos, sofrimentos.
Augusto Cury, célebre psiquiatra brasileiro, sublinha isso mesmo em relação ao correr dos pensamentos, sobretudo quando são acentuadamente negativos, não é possível carregar num botão, como se faz no computador, e desligar. Estamos ligados noite e dia, dia e noite. A mente está a trabalhar constantemente. O maior passatempo do ser humano é pensar. A aceleração de pensamentos pode provocar psicoses. Mas, garantia do mesmo autor, é possível limpar a mente, desacelerar os pensamentos, acalmar, procurar que os pensamentos negativos sejam substituídos pelos positivos, fazendo por não antecipar situações futuras, relaxar em relação às expetativas criadas em relação aos outros, sendo mais exigentes consigo do que com os outros e, como diria Bento XVI, não nos levemos demasiado a sério.
Em relação às memórias, por mais sofridas que sejam, é possível, não apagar, mas criar novas memórias, alimentar a vida, viver, criar momentos que “compensem” o tempo perdido, multiplicar acontecimentos que nos preencham positivamente ao ponto de estarem mais vivos na nossa mente e no nosso coração. Apostar na família, passar tempo de qualidade com amigos, envolver-se em iniciativas sociais e solidárias, parar, rezar, conversar, suspender juízos de valor, tanto quanto possível, procurar afastar pensamentos negativos e alimentar-se de esperança e das possibilidades que temos pela frente. Viver cada dia, com alegria e confiança, sem dramas, sem hesitar, dando o benefício da dúvida às pessoas que estão ou que entram na nossa vida.
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/50, n.º 4827, de 19 de novembro de 2025



