Mais do que a roupa que vestes, lembra-te, és tu!
O que dizes e o que fazes!
Podes vestir-te de brocados de ouro, mas se os teus lábios só sabem amaldiçoar, dizer mal, se o teu coração se veste de ódio, de ira, de maledicência, serás apenas, como diria Jesus no Evangelho, um sepulcro caiado, por fora limpo, branco, por dentro somente podridão.
Nem todos andam na moda, nem todos vestem bem, há muitos que a custo têm mais do que uma ou duas mudas de roupa! E, no entanto, não é a roupa, o calçado ou a habitação que os define, mas o coração, a boca, as palavras, os sentimentos, a empatia. Há gente que veste pobremente, nas roupas do corpo, mas com uma alma gigante, capaz de contagiar, abençoar, trazer vida aos outros.
São João Maria Vianney, o santo Cura d’Ars, foi surpreendido pela simplicidade de um camponês. Um agricultor, todos os dias parava na Igreja para rezar. Sacudia os pés e a roupa, encostava a enxada à entrada, no exterior, e dirigia-se até junto do altar, sem dizer palavra. Um dia o santo perguntou-lhe o que dizia a Deus na sua oração. A reposta surpreende-o e a nós também: «Não digo nada. Eu olho para Jesus e Ele olha para mim». A melhor roupa é sempre o coração disponível para amar e para se deixar transformar por Deus. É o vestuário de Maria e de José quando acolhem Jesus, O levam ao Tempo ou o reencontram entre os doutores da Lei. O coração vai em festa. Não cabem dentro de si. Dançam interiormente. Há muita vida pela frente. Confiança quanto baste. Aquele Menino vem de Deus. Não há palavras. Não sabem com exatidão o que poderá reservar o futuro para o Seu Menino, mas sabem-n’O com Deus isso basta para enfrentar todo o perigo e toda a treva. Outras vezes, vestem o coração de apreensão, de receio e de uma certa ansiedade, mas é sempre o vestuário que os coloca confiantes nas mãos de Deus.
O decisivo, no que vestes, é a tua alma, o teu coração, a tua vida, a tua predisposição para amar, para cuidar, para servir os outros, para marcar positivamente a história daqueles que Deus coloca na tua vida. Se não estiveres disposto a vestir-te de alegria, de ternura, de amor, de pouco te servirá vestir bem.
Há alguns anos havia a veste de domingo e a veste da semana, ou do trabalho. A roupa domingueira, de ir à Missa, era mais cuidada, conservava-se como nova. Hoje é igual, como o Domingo talvez seja um dia como os outros. Melhor, continua a haver diferença: durante a semana, para o trabalho, leva-se a melhor roupa; ao Domingo é para andar mais à vontade, desportivamente, por casa, para passear e, talvez, para ir à Missa! Continua a haver gente que se preocupa muito com a forma de se vestir para entrar na Igreja, positiva e negativamente. Claro que a forma como vestimos também diz o cuidado que temos com as pessoas e com os lugares. Não vestimos da mesma forma se vamos à praia, se vamos correr ou se vamos para o trabalho. Mas o que pode ser bom senso, não tem que se transformar em empecilho, maledicência ou obstáculo, pois o decisivo são as tuas decisões, a forma como vês, como respeitas, como acolhes o outro. Se ele está bem ou mal vestido… se for para o ajudares! Lembra-te do que nos disse o papa Francisco na Vigília da JMJ 2023: só há uma ocasião em que podemos olhar o outro de cima para baixo, quando nos debruçamos sobre ele para o ajudar a levantar-se.
No “Principezinho”, a Raposa sublinha a alegria a crescer com o aproximar do encontro com o Principezinho quando sabe a hora do mesmo. “Se vieres, por exemplo, às quatro horas da tarde, eu, a partir das três, já começo a ser feliz. Quanto mais se aproximar a hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já estarei agitada e inquieta; descobrirei o preço da felicidade! Mas se vieres a qualquer hora, ficarei sem saber a que horas hei de vestir o meu coração…”
Cuida do que vestes, não o que te pesa, mas o que vestes para acolheres os outros!
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/12, n.º 4789, de 5 de fevereiro de 2025



