O mandato de Jesus Cristo é clarividente: «Ide, fazei discípulos todos os povos, batizando-os no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo quanto vos mandei. Eu estou convosco todos os dias, até ao fim dos tempos» (Mt 28, 19-20).
Desde então, os discípulos (missionários), daquele e de todos os tempos, tem como primeira missão anunciar o Evangelho, em palavras e obras. O Evangelho é Boa Notícia, é salvação, é o amor de Deus que veio até nós em pessoa. A Boa Notícia é o próprio Jesus. É Ele que nos cabe anunciar, as Suas palavras, os Seus gestos, as Suas obras, procurando agir do mesmo jeito, colocando os outros em primeiro lugar, servindo, gastando-Se, aproximando-Se de todos, especialmente dos pobres, dos desfavorecidos, dos desamparados, dos que precisam de voz e de vez. Jesus, Deus-connosco, vem para salvar, redimir, reconciliar, vem para todos, mas preferencialmente para os desvalidos, as mulheres, as crianças, os publicanos, os pecadores, os doentes, paralíticos, surdos, leprosos, os estrangeiros, os “impuros”, as mulheres de vida duvidosa. Obviamente, Jesus também convive com pessoas com estatuto mais elevado, como Jairo ou Nicodemos, ou Joana, mulher de Cuza, governador de Herodes, e muitas outras mulheres que O serviam com os seus bens. Ele relaciona-se com gente pouco recomendável. Aliás é acusado de se sentar à mesa com pecadores e publicanos, mas também pela proximidade espontânea a mulheres ou a pessoas “contaminadas” pelo pecado e pela pobreza.
Durante séculos, e com alguma saudade presente, o Evangelho, ou a Palavra de Deus no seu conjunto, serviu para tudo e mais alguma coisa, para ensinar, instruir, mas muito para ameaçar/amedrontar, para colocar muitos na porta do inferno ou já condenados. Ao povo hebreu, nas desgraças, era-lhe recordado o distanciamento dos mandamentos de Deus; na Igreja, nos tempos de intempérie, peste, fome e guerra, muitas vezes se sublinhava o castigo de Deus pelos muitos pecados. Difícil passar de uma concepção veterotestamentária, de um Deus justiceiro e disponível para condenar, destruir e sempre pronto para desgraçar a humanidade, para o Deus que Jesus nos revela, já de algum modo presente em muitas páginas do Antigo Testamento, é um Deus misericordioso, justo e compassivo, lento para a ira e célere para o perdão e para a bênção. Um passo mais! Jesus mostra-nos Deus como Pai próximo e que nos ama de tal forma que Se dispõe a sacrificar o próprio Filho para nos salvar, para nos reunir como comunidade, para nos assumir como filhos amados, irmãos em Cristo.
Porém, há correntes que têm saudades das igrejas cheias mesmo que de pessoas amedrontadas pelo inferno. Desafiados a ser certinhos, mas numa lógica de terror, estão, não por convicção, não porque é saudável e nos faz bem, não porque é algo justo e bom e que nos realiza como pessoas e dá sentido à vida, mas somente por medo. Fazer só por fazer, fazer apenas por medo, só tem um fim e que está à vista: igrejas vazias. Algo notório com a pandemia e com os sucessivos confinamentos, os “crentes” não regressaram, mas como recordam alguns, eles na verdade já não estavam de coração, já não se sentiam em casa. Uma Igreja que amedronta, escraviza e leva ao abandono, logo que as circunstâncias se alterem.
Diz-se muitas vezes que antigamente é que havia respeito… sim, de contrário, porrada e castigos… em casa como na escola… ou, no caso de patrões e trabalhadores, se queriam trabalhar teriam que se submeter as todas as exigências, senão, havia outros que quisessem. Assim a vivência da fé. Aos pais cabe orientar os filhos e proporcionar-lhes as vivências saudáveis, em atenção ao desenvolvimento integral, que passa, mais do que pela obrigação, pelo testemunho. Aos pais e educadores cabe exemplificar com a vida o que se ensina com as palavras.
“Anunciar o Evangelho significa ajudar as pessoas a libertarem-se da condição servil. Se incutires um sentimento de culpa em alguém, poderás mantê-la junto a ti, poderás lidar com ela da maneira que entenderes. Incuti-lo cria uma comunidade, mas será uma comunidade construída em torno do medo, em torno da culpa. O sinal de que se é filho não é a culpa, mas a liberdade” (Luigi Epicoco). Jesus é explícito: «Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi do meu Pai» (Jo 15, 15-17).
Uma Igreja de portas abertas: os filhos podem sair, mas serão sempre bem recebidos de volta!
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/14, n.º 4839, de 25 de fevereiro de 2026.



