A época em que vivemos talvez não necessite que haja uma recomendação destas! Na verdade, o culto do corpo e o desejo de manter a juventude fazem parte das obrigações e compromissos do nosso tempo. No entanto, tudo o que é feito com equilíbrio, bom senso, que não prejudique a nossa saúde nem moleste a paciência dos outros, é, senão positivo, pelo menos indiferente, sem conotação moral. Cuidar do corpo, do ambiente, da saúde não é nada de extraordinário, faz parte do nosso ser pessoas, cidadãos e como cristãos também não existe outra alternativa. Deus criou-nos por amor e deu-nos a tarefa de cuidar do mundo. A vida, dom de Deus, assim o entendemos como crentes, é para ser vivida, não para ser destruída ou diminuída, cabe-nos, tanto quanto possível, cuidar, preservar, na dimensão biológica. Sem ser um valor absoluto, sendo dom, se a recebemos e a acolhemos, cabe-nos zelar por ela, pela nossa vida e pela vida dos outros.
Há poucos anos, uma promoção publicitária, acentuava: se não gostares de ti, quem gostará?! O desafio era precisamente cuidar da alimentação e, consequentemente, da saúde.
A máxima de Jesus – quem guarda a vida (para si) perdê-la-á e quem perder a vida (por Minha causa) ganhá-la-á, insere-se numa perspetiva diferente, de quem não se poupa no serviço e no cuidado ao seu semelhante. Não se trata de destruir, mas de se gastar a favor dos outros. Jesus faz-nos balançar constantemente para os outros. Como diria o Papa Francisco, quem não vive para servir, não serve para viver. Não devais nada a ninguém, refere são Paulo, a não ser a caridade. Todos somos devedores, na caridade, no amor e no serviço aos outros. Trata os outros como senhores, ainda o apóstolo Paulo, na fidelidade a Jesus e ao Seu evangelho de amor. Como eu fiz, fazei vós também. Eu, sendo Mestre e Senhor, lavei-vos os pés, como discípulos o vosso caminho não poderá ser diferente. É a opção do Bom Pastor, que enfrenta perigos, tempestades, ameaças, para proteger as ovelhas. O bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas. É a escolha do Bom Samaritano: aproximar-se, cuidar das feridas e ajudar a levantar (a ressuscitar).
No duplo mandamento, Jesus afirma com clareza: amar a Deus com todo o coração e ao próximo como a si mesmo! Se não gostas de ti como ser humano, como filho amado de Deus, como podes amar de forma equilibrada e saudável os outros?
Na questão da autoestima é preciso equilíbrio e saúde. Quem está destruído não tem nem disponibilidade, nem disposição para os outros, nem aptidões para perceber a necessidade dos outros ou os seus sofrimentos. Quem vive amargurado, vive centrado em si e nos seus problemas. Não tem lugar para os outros. Não estamos a falar de narcisismo, colocando os outros ao serviço dos teus caprichos, mas de não te deixares levar pelos ventos da opinião pública ou pela moda, mendigo de aplausos, desprovido de convicções próprias.
Por outro lado, o que fazemos há de ser expressão do que que somos. A nossa preocupação não será agir para agradar aos outros, mas agir em função das nossas convicções e, no nosso caso, de acordo da nossa identidade batismal. Jesus há de chamar hipócritas àqueles que agem só para serem vistos, maquilhados de bondade, mas que na realidade não passam, nas palavras do Mestre, de sepulcros caiados de branco, belos por fora e dentro cheios de podridão. Dirá Augusto Cury que quem age apenas para agradar aos outros, cedo se desilude, se desencanta e, muitas vezes, cai em depressão. Não dês aos outros o que desprezas. Se não serve para ti, também não serve para os outros.
Diz-nos Haruki Murakami: “Tentar agradar a todos é realisticamente impossível, acabamos por perder tempo e desperdiçar saliva. Nesse caso, o que tenho de fazer é virar-nos para nós próprios, fazermos aquilo de que mais gostamos”.
É um belo conselho! Agrada-te a ti. Age por convicção. O que desejas para ti, multiplica para os outros. Sê inteiro, para te dares! Preenche-te de amor para poderes gerar vida. Acolhe a vida como dom, deixa que em ti floresça a bênção de Deus.
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/53, n.º 4830, de 10 de dezembro de 2025



