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Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje.

É um ditado muitas vezes multiplicado sobre a necessidade ou urgência de não adiar a vida, as respostas, os encontros, os esclarecimentos, as dúvidas, de não adiar os sentimentos ou as mágoas. Obviamente, haverá muitas situações que não poderemos resolver hoje e que precisarão de tempo e de amadurecimento, que precisarão do travesseiro, para evitar mal-entendidos e precipitações. O discernimento nem sempre é fácil, mas é necessário. Perceber o que não deve ser adiado e o que deve ser ponderado. Se há de ser ponderado, não o seja por preguiça ou por medo ou por desistência, mas seja precisamente, e apenas, pela necessidade de repensar, amadurecer, sopesar a oportunidade e relevância. Diria, se é uma situação em que poderemos ferir alguém, então sim, há que ponderar bem.

O futuro a Deus pertence. Frase também muito em voga, mas que não deixa de ser interpelação. A preocupação excessiva pelo futuro pode levar-nos a não nos centrarmos no momento presente e na vida que hoje nos cabe cumprir, viver, partilhar, arriscar. Jesus dirá aos seus discípulos para se preocuparem com o dia de hoje. O “hoje” é decisivo para amanhã. Não podemos chegar à meta, sem iniciarmos a partida, não podemos ganhar uma corrida, se não dermos um e outro passo e acelerarmos. No plano desportivo, ouvimos os treinadores a dizerem que o próximo jogo é o mais importante e decisivo. Bom, mas é com uma equipa “mais pequena”, a seguir vem um clássico, uma equipa “mais forte”! Mas, e este “mas” pode ser fatal, se não ganhas o jogo de hoje não disputarás o que virá depois, porque saíste da competição, ou se perdes pontos agora, quando chegares a disputar os jogos seguintes já te atrasaste de tal forma que não consegues recuperar os pontos perdidos ou desperdiçados. Na vida acontece algo de análogo, se não vives hoje, amanhã poderá ser tarde e poderás não recuperar o tempo perdido ou não voltares a ter oportunidades semelhantes e que, na ocasião, adiaste ou simplesmente não quiseste criar.

Vivemos há dias a comemoração dos Fiéis Defuntos, fazendo-o numa atitude de memória e gratidão. Nos cemitérios também pudemos avivar a nossa realidade mortal, finita, passageira. Diante da morte, melhor, diante dos nossos familiares e amigos falecidos constatámos como a vida é breve. Há muitos que só nessa altura percebem que tiveram oportunidades que perderam, não disseram quando deveriam ter dito, não estimaram quanto desejariam ou quanto lhes merecia esse familiar ou amigo. Como pároco, já o ouvi de familiares que publicamente assumiram que adiaram a visita, porque havia sempre alguma coisa mais para fazer ou a possibilidade de arranjar um tempinho mais para a frente, no futuro. Desculpas porque o tempo foi passando e quando se deram conta já não tinham tempo para falar, para estar e para agradecer. O mote é sempre o mesmo: viver hoje. Fazer o melhor. Carpe Diem. A cada dia a sua preocupação. O amanhã terá as suas próprias preocupações, como o revela Jesus nos Evangelho. Por vezes não temos tempo, melhor, não temos motivação para estar, ir, falar e permanecer, mas há de chegar uma altura em que poderemos já não ter as pessoas connosco, em casos mais definitivos, ou já não podermos dizer-lhes o que desejaríamos porque a vida seguiu outro rumo e afastamo-nos tanto que não é possível voltar atrás nem alterar a rota do caminho já percorrido. Como sempre sublinho, a vida não é branco e preto. Há matizes. Tudo isto pode estar muito certo. Tudo isto poderá ser um disparate. Mas, pelo sim, pelo não, porque não arriscar a viver hoje a vida com entusiasmo, com alegria, dizer o que tem de ser dito, agir como se não houvesse amanhã. Não importa que sejam frases feitas. Também nessas frases se exprime a sabedoria das pessoas e dos povos. Amanhã, como diz o cantor, é sempre tarde demais, se hoje não deste nenhum passo.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/48, n.º 4825, de 5 de novembro de 2025

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