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Abstinência de palavras que ferem

Escutar, jejuar, juntos.

Três palavras-chaves da mensagem do Papa Leão XIV para a Quaresma. Escutar a Palavra de Deus conduz a acolher os Seus mandamentos, predispondo-nos à conversão, conversão a Deus que, por sua vez, nos compromete com os Seus filhos, sobretudo os que se encontram em situação mais frágil, os pobres, os que sofrem.

Todo o caminho de conversão começa quando nos deixamos alcançar pela Palavra e a acolhemos com docilidade de espírito. Existe, portanto, um vínculo entre o dom da Palavra de Deus, a hospitalidade que lhe oferecemos e a transformação que ela realiza. Por isso, o itinerário quaresmal torna-se uma ocasião propícia para dar ouvidos à voz do Senhor e renovar a decisão de seguir Cristo, percorrendo com Ele o caminho que sobe a Jerusalém, onde se realiza o mistério da sua paixão, morte e ressurreição”. Com efeito, a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro”. O santo Padre dá o exemplo de Moisés, em que, primeiramente, Deus escuta o Seu povo: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egipto, e ouvi o seu clamor» (Ex 3, 7). Assim, prossegue o Papa, “escutar o clamor dos oprimidos é o início de uma história de libertação, na qual o Senhor envolve também Moisés, enviando-o a abrir um caminho de salvação para os seus filhos reduzidos à escravidão… Por isso, escutar a Palavra na liturgia educa-nos para uma escuta mais verdadeira da realidade: entre as muitas vozes que passam pela nossa vida pessoal e social, as Sagradas Escrituras tornam-nos capazes de reconhecer aquela que surge do sofrimento e da injustiça, para que não fique sem resposta”.

Da mesma forma o jejum nos predispõe para acolher a Palavra de Deus. O jejum, com efeito, implica o próprio corpo, para tomarmos mais consciência do que temos fome e do alimento que consideremos essencial. Importará discernir entre os “apetites” e a sede de justiça, não nos resignando, mas tomando a sério a responsabilidade que temos pelos outros. “O jejum permite-nos não só disciplinar o desejo, purificá-lo e torná-lo mais livre, mas também ampliá-lo, de tal modo que se volte para Deus e se oriente para agir no bem”.

Citando o Papa Bento XVI, o santo Padre sublinha que é fundamental viver o jejum em atitude de fé e humildade, para conservar a autenticidade evangélica, enraizando-se na comunhão com o Senhor. “Não jejua verdadeiramente quem não sabe alimentar-se da Palavra de Deus» (Bento XVI).

Jejuar por jejuar, valerá pouco ou nada se for apenas um mero exercício de autodomínio ou exercício de superação. Pelo contrário, o jejum há de fazer-nos perceber qual o alimento essencial, voltar-nos para Deus, escutando a Sua palavra e a Sua vontade, convertendo o nosso ao Seu coração amoroso, comprometendo-nos com as tristezas e alegrias, sofrimentos e esperanças do nosso semelhante. A Quaresma, diz o Papa, “realça a dimensão comunitária da escuta da Palavra e da prática do jejum”. Na verdade, “as nossas paróquias, famílias, grupos eclesiais e comunidades religiosas são chamadas a percorrer, durante a Quaresma, um caminho partilhado, no qual a escuta da Palavra de Deus, assim como do clamor dos pobres e da terra, se torne forma de vida comum e o jejum suporte um verdadeiro arrependimento”.

Clarividente, na mensagem papal, é o seu apelo a uma forma concreta de abstinência: “a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo”. Explicitando, diz-nos o Papa: “Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias. Em vez disso, esforcemo-nos por aprender a medir as palavras e a cultivar a gentileza: na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs. Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz”.

Há palavras que geram guerra, que geram morte. Que as nossas palavras criem harmonia e paz, criem saúde e vida.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/13, n.º 4838, de 18 de fevereiro de 2026.

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