… e este já vai na conta!
Eis o jeito tão popular de dizer que a vida é efémera, passa num instante, um abrir e fechar de olhos! Por vezes chateamo-nos por pouco, por dá aquela palha, por quase nada. Depois percebemos que nos equivocámos, que era sobretudo uma questão de linguagem ou porque queríamos ter razão! Mais vale ser feliz que ter razão! Eu sou melhor que tu! É o pressuposto que nos leva, tantas vezes, a discutir, amuar, a virar as costas, a não querermos saber, a magoarmos quem não diz connosco ou não secundariza o que dizemos. Há de haver um tempo em que a frontalidade dará lugar à calmaria, à escuta, à tolerância; há de chegar o dia em que nos daremos conta que perdemos amigos, nos desgastámos, nos afastámos da família, porque concluímos que tínhamos motivos para nos indispormos, para vermos reconhecidos os nossos argumentos, porque entendíamos que as palavras, os gestos e os esquecimentos que tiveram em relação a nós teriam que ser superados, corrigidos e perdoados com um pedido de desculpas ou um gesto que compensasse, de alguma forma, a ofensa que nos fizeram.
E se o outro concluiu da mesma forma? Perdoar é uma opção de vida que nos torna saudáveis. Quem não perdoa, como acentua Augusto Cury, come e dorme com o inimigo, pois o inimigo preencherá a sua mente e o seu coração, o dia todo, todos os instantes. Perdoar não exige desculpas, é uma opção que brota da vontade em aceitar que somos limitados e os outros também o são. Poderíamos ser nós a errar e a querer ser compreendidos e perdoados. Para nos chatearmos que seja por algo que valha a pena, algo que ofenda a dignidade ou pressuponha o desrespeito por convicções.
A vida é tão curta! Somos crianças que querem crescer e ser reconhecidas na sua importância. Somos adolescentes convictos que podemos transformar o mundo por completo, à nossa maneira. Somos jovens que nos confrontamos com escolhas, nem sempre fáceis, sobre a vida pessoal e familiar, sobre cursos a seguir ou profissões a escolher, descobrindo que alguns sonhos não são exequíveis. Somos adultos que se confrontam com a dureza da vida, com opções que não foi possível prosseguir, ou com escolhas que nos levaram por caminhos que não queríamos. E logo seremos idosos a precisar de ser reconhecidos, amados, cuidados, à espera de ser compensados pelo que fomos, pelo que fizemos, pelo carinho com que tratámos a família, os amigos e os colegas de trabalho! E se chegámos a velhos, talvez sejamos confrontados com os sonhos que não realizámos ou com situações em que magoámos (inutilmente) pessoas e outras situações que nos feriram a alma.
O salmista é expressivo, a vida é “como a erva que se corta. Se de manhã está verdejante e é cortada, pela tarde, já está murcha e depois seca (Sl 90). Como expressivo é Job: “O homem, nascido de mulher, tem curtos dias de vida… Desponta como a flor e logo murcha; foge como a sombra e não permanece” (Job 14, 1-2). Não adies o futuro. Vive hoje. A vida é curta. Demasiado curta. Quando nos dermos conta, já não estaremos. Sai. Diverte-te. Canta. Grita. Dança. Abraça. Comunica os teus sentimentos. Não adies palavras, nem gestos, não adies a vida. Nem tudo será possível, porque nem tudo depende de nós e há sonhos que exigem tempo, dinheiro e condições físicas, mas nem por isso deixes de sonhar, de viver, de sorrir e de bailar. Não deixes para amanhã o que podes usufruir hoje.
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/20, n.º 4797, de 2 de abril 2025



