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A torre de Babel e as Muralhas de Jerusalém

Na sua primeira carta encíclica, Magnifica Humanitas (A Magnífica Humanidade), sobre a salvaguarda da pessoa humana na Era da Inteligência Artificial, o Papa Leão XIV parte de duas imagens bíblicas: a construção da Torre de Babel (cf. Gn 11, 1-9) e a reconstrução das Muralhas de Jerusalém (cf. Ne 2-6). Duas visões sobre o mundo, sobre a humanidade, sobre a relação com Deus e com os outros.

Logo no início do seu pontificado, o papa Leão XIV explicou a escolha do nome relacionando-o com o Papa Leão XIII que se tinha confrontado com a revolução industrial, agora, sublinhava o papa, há uma nova revolução em curso, a Inteligência Artificial. Como então, também agora são vários os desafios e os caminhos a seguir. A tentação e a cobiça estão à espreita. O mundo na mão de poucos, com a potenciação do poder económico e militar. Por outro lado, a Inteligência Artificial (IA) melhora (ou pode melhorar) a vida das pessoas, potenciando os recursos médicos, a proximidade entre pessoas, a produção alimentar, a habitação acessível, podendo gerar mais solidariedade, partilha e a comunhão. Trata-te de escolher bem. Para o cristão, a escolha é clara, só Deus é Deus e todas as pessoas são merecedoras de atenção e cuidado, tratando-os como iguais, como irmãos. Também a IA terá que ser instrumento ao serviço da humanização das sociedades do nosso tempo, ao serviço da cultura e da identidade dos povos.

Como em tempos sublinhava Bento XVI, a globalização tornou-nos vizinhos, mas não irmãos. As periferias existenciais, para utilizar outra expressão papal, do papa Francisco, têm-se multiplicado. A evolução tecnológica e científica criou as condições para que famílias e povos vivam em paz, harmoniosamente, e em que as pessoas desfrutem do melhor, no acesso à cultura, à edução, à saúde, e em que os direitos fundamentais sejam garantidos. No entanto, tal não tem acontecido e milhões de pessoas continuam a viver na pobreza. Trata-se de fazer escolhas que constroem ou que destroem, que aproximam ou que afastam, que nos irmanam ou nos demonizam.

A construção da torre de Babel aparece no início da criação, imediatamente depois do dilúvio. A ideia era construir uma torre que chegasse ao céu, unindo todos à volta de uma única língua, uma cidade, uma única direção, uma única tecnologia. Segundo o santo Padre, “o projeto esconde uma profunda insídia: é uma obra pensada sem referência a Deus, sustentada por uma uniformidade que elimina a diversidade e que, em vez de comunhão, opta pela homogeneização. Quando a cidade se edifica sobre o orgulho e a pretensão de se bastar a si mesma, a comunicação é interrompida, as línguas confundem-se e os seres humanos deixam de se compreender. O resultado não é a unidade, mas a dispersão”.

A segunda imagem situa-nos num tempo de grande vulnerabilidade, parte do povo regressou do exílio babilónio e entra na cidade de Jerusalém ainda debastada. Neemias, um judeu ao serviço do rei persa Artaxerxes, reza, jejua, intercede pelo povo e pede ao rei permissão para também regressar a Jerusalém. É necessário reconstruir a muralha. Neemias chama as famílias e confia-lhes uma parte da muralha para construir, ouvindo os receios, coordenando os esforços e enfrentando as oposições. “A cidade renasce não graças à iniciativa de uma única pessoa, mas através da responsabilidade partilhada por todo o povo: sacerdotes, artesãos, chefes de família, mulheres e jovens. É uma obra que tem Deus no centro e que reconstrói as relações antes mesmo das pedras… a antiga Jerusalém reencontra uma linguagem comum, não da uniformidade, mas a da comunhão”.

Trata-se de escolher. “A tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa Comum; mas também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças… por isso, a primeira escolha não é entre um ‘sim’ ou um ‘não’ à tecnologia, mas entre edificar Babel ou reconstruir Jerusalém: entre um poder que pretende dominar o céu ou um povo que unido, na presença de Deus, começa o trabalho de reerguer os muros da convivência fraterna”.

Que escolhas fazer? O bom ou mau uso da IA também nos diz respeito!


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/38, n.º 4863, de 26 de agosto de 2026

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