«Quando te amas por inteiro é que compreendes que nada te serve menos do que mereces: menos do que ser amado por inteiro»
Existe uma ideia generalizada de que a reciprocidade é algo justo e obrigatório. Receber é algo muito bom, mas oferecer, é qualquer coisa de fantástico. A felicidade plasmada no olhar de quem recebe devia ser, só por si, o “pagamento”.
Um dos problemas da nossa sociedade é precisamente que todos os tipos de transações se transformaram obrigatoriamente em algo material, e consequentemente, valioso.
Deixámos de ter sensibilidade para captar e receber os gestos, os olhares, os sorrisos… deixámos de colocar amor naquilo que fazemos.
A reciprocidade deve existir, sim, mas no sentido de entrega total ao próximo, por amor ao irmão e a Deus, deixando para Ele a nossa recompensa na vida eterna.
A capacidade de entrega, de amar profundamente só acontece quando nos amamos, o que não significa ser egoísta ou egocêntrico. Só conhecendo esse amor por nós, só tendo esse amor semeado no coração é que conseguimos que este transborde em relação aos que nos rodeiam. E sendo puro, a recompensa de ser amado por inteiro acontece nesse pequeno olhar do outro e na certeza de que realizamos um desejo de Deus nosso Pai.
A vida, o amor, a entrega a Deus passa muito longe dos bens materiais. Sorrir na rua enquanto proferimos um ‘bom dia’, com alegria e pura vontade, pode significar mais do que qualquer bem dado ou recebido por aquelas duas pessoas que se cumprimentam genuinamente.
Deixemo-nos entregar por inteiro nas relações humanas… a recompensa está sempre garantida.
Raquel Assis, in Voz de Lamego, ano 94/44, n.º 4772, de 2 de outubro de 2024.



