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A oração que se faz vida

A oração, por vezes não é fácil. Jesus deixa transparecer para os Seus apóstolos uma postura de oração confiante em Deus Pai. Nos momentos mais delicados, mais relevantes, os evangelistas são concordes em apresentar Jesus em oração, a retirar-se de manhã cedo, por exemplo, para um lugar isolado e a rezar. No Jardim das Oliveiras, a oração de Jesus é intensa. Os apóstolos acompanham-n’O por instantes, mas depois adormecem à espera que Jesus acabe de rezar. Pedem-Lhe que os ensine a rezar. Por certo, porque percebem que a Sua oração é profunda, envolvente e traz consequências para a Sua vida, na interação com as multidões ou com aqueles que se aproximam d’Ele por alguma carência física ou espiritual. Jesus ensina-lhe a oração do Pai-nosso. Deus Pai de todos, em Quem confiar é a Quem suplicamos benção para nós e para os outros, no compromisso de realizarmos o que pedimos, pondo em prática a vontade e o reino de Deus, em lógica de amor, perdão, conciliação e serviço. Noutras ocasiões, Jesus fala-lhes na necessidade de orar constantemente sem desanimar, contando que Deus Pai sempre lhes há de responder.

Esta é a garantia de Jesus: Deus responde. Deus fortalece-nos para o combate. Entenda-se, o combate que travamos em busca do amor, da ligação aos outros, procurando lidar com os obstáculos que temos pela frente. Por maiores que sejam, por mais que nos pareçam invencíveis.

Em muitas das situações da vida parece que Deus não nos escuta porque a vida continua o seu percurso natural sem alterar o rumo que Lhe suplicámos. Não há respostas fáceis. Há pessoas que, no meio dos maiores tormentos, rezam e percebem a presença de Deus; há outras que desesperam e desistem de rezar. É como a fé! Esta não nos livra das dificuldades, dá-nos ânimo para prosseguir o caminho. Já fizemos essa experiência: momentos difíceis em que tivemos de nos empenhar em resolver, mas que sentimos o apoio e a presença da família e/ou dos amigos, e isso deu-nos força para não desistir, para não nos deixamos abater. Assim, também Deus, como Pai, com coração de Mãe, continua connosco no caminho, neste desafio: perceber que nos dá a mão e nos conforta com a Sua palavra, com a Sua presença invisível, ainda que no meio da tormenta.

A oração há de levar-nos ao compromisso e à ação. O Papa Francisco dirá que a fé é manufaturável, isto é, passa da inteligência para o coração e do coração para as mãos. Do mesmo modo, a oração, liga-nos a Deus, comprometendo-nos com os irmãos.

Numa passagem do Antigo Testamento, lemos a narração de uma batalha dos israelitas contra os amalecitas (cf. Ex 17, 8-13). O grande líder de Israel, Moisés, diz a Josué, seu discípulo e sucessor: «Escolhe alguns homens e amanhã sai a combater Amalec. Eu irei colocar-me no cimo da colina, com a vara de Deus na mão».

Vale a pena debruçar-nos sobre alguns pontos, concluindo desde logo que Deus quer que todos se salvem e não sancionaria a violência sobre os outros, pois não é essa a Sua justiça. Desde logo é perceptível que a oração é decisiva, mas requer, exige ou pressupõe o compromisso com o que pedimos, conduz às obras. Moisés vai para o cimo do monte rezar e Josué vai para o campo de batalha lutar com todas as forças, sem descanso, até ao pôr do sol. A luta é acompanhada pela oração. A oração não dispensa a ação. Moisés mantém-se vigilante em oração durante todo o tempo em que decorre a batalha. Há uma ligação direta entre a oração e a vitória sobre o mal. Então, não cessemos de rezar, em tempos específicos, individual e comunitariamente, e mesmo nos nossos afazeres não deixemos de voltar o olhar, o coração e a vida para Aquele que nos recria constantemente. Se Deus não resolver os nossos problemas, que nos conceda a paz, a sabedoria e a coragem para lidar com tais sofrimentos e adversidades!


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/51, n.º 4828, de 26 de novembro de 2025

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