HomeDestaquesA luz que nos conduz

Uma luzinha, por mais pequenina que seja, pode ser suficiente para nos apontar um rumo, nos indicar uma saída, uma direção.

Imaginemos, como em tempos referiu o Papa Francisco, que estamos num estádio de futebol, às escuras, e se acende uma pequena luz (um isqueiro, uma vela), e cada um acende a sua pequena luz. Com cada pequena luz acesa, em conjunto, o estádio fica mais iluminado, sendo possível ver pessoas e os seus rostos.

Muitas vezes não precisamos de caminhos fáceis ou de quem faça por nós o que nós podemos e devemos fazer. Mas saber que contamos com outro, saber que, mesmo que falhemos, não estamos sós, que há alguém que nos dará a mão, nos acolherá no seu abraço, nos há de escutar, nos incentivará a caminhar, só isso pode ser o bastante para prosseguirmos o caminho com segurança. Não sabemos o que encontraremos pela frente, o que será o futuro, mas sabemos que não estamos sozinhos, não nos perderemos em labirintos de solidão e treva, haverá alguém que espera por nós, que nos incentiva, que nos estende a mão e o colo, que nos ajuda a levantar, que nos chama, orientando os nossos passos, que acende aquela luzinha que nos permite ver um pouco mais. No dizer de Bento XVI, mesmo depois de todos terem deixado de nos ouvir, Deus continua a escutar-nos e a esperar por nós.

O Deus que nos é revelado em e por Jesus é Pai. É Pai que nos ama com amor de Mãe. Deus acaricia-nos para que o mal não nos aniquile, para que não percamos de vista o bem, o amor, a bênção. É luz que desfaz as trevas que muitas vezes carregamos.

Os pais, que o são, não apenas biologicamente, mas por vocação, por missão e compromisso, por amor, não deixam os filhos sem resposta, até onde é possível responder, até onde têm a responsabilidade por eles. Não se substituem aos filhos. Às vezes era mais fácil estar no lugar dos filhos, ficarem doentes em vez dos filhos. Mas não é possível. Cada vida é única. Não nos podemos substituir uns aos outros. Somos, neste caso, insubstituíveis. Não podemos reduzir o outro a nós ou que o outro nos reduza a si, seja no bem ou no mal. Aniquilar-nos, podemos; ocupar o lugar “humano” do outro, não é possível e não é humano. Dirá Levinas, o outro é, sempre, totalmente outro.

Deus é Pai. E, como para todos os pais, os filhos têm prioridade. Por amor nos chamou à vida e por amor é responsável por nós. Não nos substitui. Não ocupa o lugar que é o nosso. Não somos marionetas nas Suas mãos, somos filhos. O Seu amor é tão, tão grande, que nos deu, nos dá o Seu filho, faz com que o Céu desça à terra, para que a terra seja iluminada pelo Céu; fez com que o divino encarnasse e assumisse a carne humana. Tornou visível o caminho de regresso ao Seu abraço, ao Seu mundo, ao Seu coração.

Não podemos viver a vida uns dos outros. Devemos, na verdade, fazer parte da vida uns dos outros, pois pertencemos uns aos outros, somos parte uns dos outros, irmãos, somos da mesma família, somos filhos do mesmo Pai. Mas não podemos, contudo, viver em vez do outro, fazer por ele. Podemos ensinar, comunicar a vida. Não podemos substituir.

A fé é a tal luz que se multiplica na vida da comunidade. Juntos, em caminho e em comunhão, a luz torna-se mais intensa, tornando o caminho mais seguro, deixando entrever Aquele que nos guia e que é Luz sem ocaso.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/47, n.º 4824, de 29 de outubro de 2025

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