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A Inteligência Artificial e o Neocolonialismo

Ao longo da história da humanidade, a que chegou até nós e que, portanto, conhecemos dos livros de história, mas também pela arqueologia, houve famílias, tribos, povos que se impuseram, impondo os seus costumes. A civilização evolui, prevalecendo muitas vezes a lei do mais forte, mas também através da assimilação de costumes, leis, técnicas, conhecimentos. Nenhum de nós poderá afirmar, sendo honesto, que pertence a uma casta pura, inocente, original. Somos devedores uns dos outros, na mistura de genes, de pessoas oriundas de diversas latitudes.

Genericamente! A Grécia trouxe a filosofia e a democracia. O império romano disseminou a língua, a cultura, a arte da guerra, a evolução da higiene, dos banhos, dos negócios. O mundo judaico trouxe os valores, o respeito pela vida e pela propriedade, a espiritualidade, os cuidados de saúde, a abertura ao transcendente, as finanças, e os grandes filósofos da modernidade. Com o islamismo, o desenvolvimento da matemática e da geometria, da navegação e uma visão diferente sobre a vida e o mundo, subjugando tudo ao religioso. Não conhecemos tanto, mas o hinduísmo e os povos orientais mostraram outras formas de viver e de organizar a sociedade.

Durante alguns séculos, o império romano estendeu a sua influência, num processo que ficou conhecido como a romanização, que chegou até às terras lusitanas, respeitando a cultura nativa, a religião, os usos e costumes, mas pouco a pouco introduzindo as suas leis, a forma de governar e de organizar o mundo. Esses mundos ruíram! Reis e imperadores, e faraós, que se impuseram, criando formas de expandir o seu poder e de apaziguar as terras colonizadas. Contudo, o tempo, novas lideranças, desejo de liberdade e de autodeterminação, colonos descontentes e que mantiveram o sonho de resgatar a sua cultura e a identidade dos seus povos, fizeram ruir os colonizadores. Portugal e Espanha, para disseminar a religião cristã e defendê-la dos sarracenos, dizem alguns, ou para arrebanhar outras riquezas e contentar nobres e burgueses, para ganharem ou manterem estatutos sociais, dividiram o mundo em dois hemisférios, pelos territórios descobertos e a descobrir, dirão outros! Outras nações seguiram o mesmo propósito, Inglaterra, França, Holanda, Alemanha. A Primeira e a Segunda Guerra Mundiais buscam novas conquistas, poderes, equilíbrios. O mundo ocidental, sob influência judaico-cristã, e a antiga URSS (União Soviética) prolongaram o sonho paternal de influenciarem regiões inteiras, no que ficou conhecido como guerra fria. O sonho da paz foi sendo moldado em simultâneo com os jogos de bastidores que cisavam novos poderes, ameaças, novas divisões.

Na atualidade, continuamos a ter dois blocos que guerreiam às claras, Rússia e EUA, e que, sub-repticiamente, se vão entendendo e dividindo o mundo. Sem esquecer Israel, Irão, China e Coreia do Norte. Dividir para reinar. Derrubar governos e conquistar territórios.

O cristianismo fez-nos progredir em vários campos do saber, da cultura, da ciência, uma visão do mundo assente na dignidade da pessoa, no respeito pela vida, na prossecução da justiça, da igualdade, da participação de todos na vida da comunidade, na escolarização, com criação de escolas e universidades, no apoio aos mais frágeis, criação de orfanatos e de hospitais, valorizando a vida de crianças e de idosos. Liberdade, igualdade e fraternidade só são possíveis no cristianismo. A revolução francesa, como bem reflete o nosso Bispo, não tem um Pai comum a todos e, não havendo um pai, não poderá haver irmãos, não é possível a fraternidade. Mas mesmo a liberdade e a igualdade nasceram, foram suscitadas e possíveis, na mundividência cristã.

Fomos colonizadores, levamos novos mundos ao mundo, e tornamo-nos colonizados pelos meios de comunicação social, pelas redes e plataformas digitais e, acentuada e aceleradamente, pelos algoritmos da Inteligência Artificial.

Quando se esbatem fronteiras culturais, quando se perde a identidade, tudo se torna volátil, igual, indiferente, não há espaço para o enriquecimento mútuo, para o diálogo construtivo. As fronteiras físicas afastam, dividem, asseguram alguma segurança, mas impedem também o encontro. As fronteiras culturais são lugares de encontro, de descoberta do outro e da sua identidade. O que nos diferencia permite-nos caminhar juntos, em busca de um futuro mais são.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/41, n.º 4868, de 30 de setembro de 2026.

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