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A figura controversa e admirável do Rei David

O Papa Francisco evocava David como santo.

Como Rei de Israel, David é inigualável ao ponto de muitos ansiarem pelo seu regresso. Com efeito, o Messias esperado é esperado como um novo David capaz de restaurar Israel e devolvê-lo à sua grandeza.

Para nós portugueses paira no ar uma figura igualmente davídica e messiânica, mas com outro nome, D. Sebastião. O rei que tendo ido para a guerra, com grande fome de vitória, em nome de Portugal e respondendo ao pedido do Papa, para impedir que os turcos, através de Marrocos, invadissem terras da cristandade, acabou por desaparecer demasiado cedo. A sua morte está envolva em grande mistério, terá sido morto na batalha de Alcácer-Quibir, ou capturado, sendo exigido resgaste. O fenómeno, sebastianismo, ainda existe na sociedade portuguesa, um líder que, como D. Sebastião, pudesse colocar Portugal no centro do mundo pela importância, pela riqueza, pelo poderio. Em manhãs de nevoeiro, D. Sebastião não regressou e não vai regressar, então há que ser cada um de nós, herdeiros duma identidade nossa, lusitana e cristã, mestiços de cor e de origem, possamos contribuir para uma civilização pacífica e solidária em que prevaleçam os ideais da justiça, da solidariedade, da participação e inclusão de todos, sob inspiração judaico-cristã, colocando o outro em primeiro lugar, nunca como servo ou estranho, sempre como senhor a quem servir, sem falsos servilismos.

Regressemos a David, esta figura essencial para a identidade cultural, política e religiosa do povo judeu. Há outros nomes importantes, como Abraão, nosso pai na fé, referência fundante para judeus, cristãos e muçulmanos, e como Moisés, figura maior que guia o povo do Egito para a terra prometida e que, em definitivo, fixa a identidade do povo hebreu através dos Mandamentos e muitos outros preceitos que regulam a vida social, económica, familiar, religiosa e cuja a Lei continua a ser incontornável para o judaísmo.

Sucedendo a Saúl, David torna-se um estratega político, conseguindo unir as 12 tribos de Israel, tornando-se Rei de Israel e, muitos anos depois, também de Judá. Resgatou Jerusalém para capital, preparou um exército, granjeando temeridade aos povos vizinhos. Dessa forma, assegurou a pacificação do país, afastando ameaças e incursões de outros reinos. Salomão, seu sucessor, beneficiou desta grandiosidade, apostando mais na cultura e levando por diante a construção do Templo. Os reis seguintes não tiveram a mesma sabedoria para manter a integridade territorial. Daí que o ideal davídico continue a presente. No tempo de Jesus, havia a expectativa na vinda de Messias à imagem de David, um Rei que agrupasse um exército temível para derrotar os romanos.

Grande Rei, mas também, como o comum dos mortais, com muitas falhas. Numa das batalhas, David ficou por casa e enfeitiçou-se pela mulher de Urias, engravidando-a. Para evitar escândalos, David desafia Urias a fazer uma pausa na guerra e a deitar-se com a mulher. A sua recusa, por não querer privilégios para si, criam outro problema a David, que engendra um plano para provocar a morte de Urias, em pleno campo de batalha, podendo assim tomar Betsabé por esposa. O profeta Natan faz saber a David o quando desagradou ao Senhor e, por conseguinte, o primeiro filho desta relação morrerá. Durante dias, David fez um rigoroso jejum e passava as noites deitado no chão. Ao sétimo dia, o menino morreu. “Então David levantou-se do chão, lavou-se, ungiu-se, mudou de roupa, entrou na casa do Senhor e prostrou-se. Depois foi para sua casa, pediu que lhe servissem alimento e comeu”. Os servos admiram-se: «Que estás a fazer? Enquanto o menino foi vivo, jejuavas e choravas; e agora que o menino morreu, levantas-te e pões-te a comer!» Ele respondeu: «Enquanto o menino foi vivo, eu jejuei e chorei, pois dizia para comigo: “Quem sabe? Talvez o Senhor se compadeça de mim e o menino viva”. Mas agora que ele morreu, porque hei de jejuar? Acaso poderei trazê-lo de volta? Sou eu que um dia hei de ir ter com ele, mas ele não voltará para junto de mim”.

Diante de uma perda imensa, David não perde a fé em Deus e, quando necessário, intercede a favor do povo que lhe foi confiando.

Diante das adversidades, como fica a minha fé em Deus?


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/36, n.º 4861, de 5 de agosto de 2026

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