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A feira anual de Pretarouca

Um olhar exterior

No passado dia 27 de abril, quando transitava entre  Reconcos e as aldeias da serra (Pretarouca e Dornas), aproveitando uns adelgaçados e envergonhados raios de sol, mesmo estes, tão raros nos últimos meses, que fluíam através das nuvens carregadas como breu, deparei com uma situação surpreendente e, para mim, absolutamente inusitada: Praticamente toda a estrada, no percurso entre a ponte da barragem, antes da escola de Pretarouca e o alto, antes das Dornas, estava completamente “à pinha” de carros, servindo mesmo o asfalto, como lugar de parqueamento. Nas bermas da estrada, observei diversas tendas, onde se vendiam farturas, biscoito, cebolinho, couves e outros produtos agrícolas para plantar. Com a dificuldade devida, depois de ter percorrido mais alguns metros, avistei uma multidão enorme, que preenchia, quase na totalidade o recinto antes destinado aos prodigiosos e talentosos “jogadores da bola”, quase sempre na modalidade, solteiros contra casados!   

O que se passa? Perguntei!

A resposta veio em modo de sinopse histórica, que passo, a descrever, de forma breve e resumida:

Durante muitos anos, a feira anual de Pretarouca realizava-se no mês de julho, junto ao cemitério, à Capela de Nª Sr.ª dos Aflitos e do cruzeiro, no lugar das almas, tendo-se mantid0 neste modelo, até ao ano de 1998, inclusive. Durante este período, sobretudo no início, a feira era muito forte, muito conhecida, e concorrida, atraindo também muita gente das regiões vizinhas.  Exemplo disso, é o testemunho de um familiar, de Magueija, que se lembra, de juntamente com um dos seus irmãos, os pais e o avô, levarem um farnel, que deliciosamente saboreavam à sombra de umas piornas, para não perder pitada da feira. Aqui, compravam biscoito, carrinhos e brinquedos de plástico e alguma roupa nova. Ao mesmo tempo, os “reclamistas” – que se dizia que vendiam a banha da cobra – apregoavam, às carradas e com selo de garantia, a preços, quase nulos, cobertores, lençóis, panos de cozinha, toalhas, etc. Noutro registo, mas de igual importância, o carismático “Ferreiro de Cotelo”, natural de Pretarouca, vendia artigos criados por ele, tais como, lampiões, enxadas, “picabecas”, picaretas, ganchos, forquilhas, etc. 

Havia uma camioneta com música variada, do género discos pedidos, para dedicar a alguém em especial ou de quem se gostava e que percorria clássicos como: “Oiça lá ó Senhor vinho”, e “Tu és o Zé que fumas”; para os “aceleras”, o célebre “Calhambeque” de Roberto Carlos, ou então, em alternativa, com dedicatória séria e enamorada, as nostálgicas “Cartas de Amor” de Tony de Matos, ou “Recordar é Viver” de Victor Espadinha. Naturalmente, estavam há muito esgotadas e indisponíveis, na camioneta da feira, as árias, as sonatas ou as sinfonias, do período barroco (Vivaldi, Bach ou Haendel) ou do período clássico, (Haydn, Mozart ou Beethoven). 

Saltando por cima dos acordes, das semínimas e das colcheias, de timbres e ritmos diferenciados e muitas vezes impercetíveis, a senhora Laureana, de regador à cabeça, vendia, água à medida, em copo de lata, enquanto que o senhor Álvaro, ajustava, a granel, linhas, pentes, facas e espelhos. Para garantir e manter frescas as cervejas cergal, o senhor Álvaro, montava uma barraca com paus de amieiro e cobria-a com ramos desta árvore para assegurar uma sombra, colocando as cervejas em baldes cheios de água fresquinha, da fonte, para matar a sede aos sequiosos negociantes e visitantes.

Para além deste intercâmbio dinâmico entre feirantes e fregueses, decorria no Salgueiro, espaço entre o cruzeiro de Pretarouca e a aldeia de Peixeninho, um concurso, constituído por uma corrida de burros, e uma luta de bois, atividades muito apreciadas por todos! Foi assim até ao momento em que as vacas começaram a abanar demasiado a cabeça, de forma estranha e desregulada, provavelmente devido à sua loucura. A feira retomou mais tarde, sendo a última realizada no ano de 1998, conforme já antes referido.

Quando tudo parecia terminado e sem esperança, no ano de 2023, um grupo de quatro jovens (Marta Pereira, Sérgio Pereira, Mariana Pereira e o Vítor Martinho) teve uma ideia inédita e brilhante; como retomar a feira anual de Pretarouca, introduzindo como atração principal a tão apreciada luta de bois. A ideia concretizou-se, tendo a escolha do espaço recaído no antigo campo de futebol, de que já atrás fiz referência, ao lado da escola e antiga sede da extinta Junta de Freguesia, junto da barragem. Esta iniciativa teve um acolhimento de tal entusiasmo, que repetiu no ano seguinte e no ano de 2025.

Recordo que antes de ter começado a descrever a resenha da feira de Pretarouca, estava a chegar ao local onde se encontrava montada toda a logística: Três espaços (tasquinhas) reservados a Pretarouca, Magueija e a uma feirante (Judite Coelho), nascida em Pretarouca e atualmente a residir em Feirão e um espaço central, destinado à exibição da atração da tarde, a famosa luta de bois. No entanto, foi uma missão quase hercúlea, a chegada destes protagonistas ao palco que lhes estava destinado, dado que a ponte da barragem estava totalmente obstruída, devido ao estacionamento desordenado das viaturas dos que acorreram a este espaço. Foram necessárias várias intervenções e insistências do “speaker” e animador de serviço, para a remoção das mesmas. Claro que o resultado desta diligência, foi completamente nulo, numa primeira fase, mas a custo, lá se conseguiu abrir caminho para que os transportes das “estrelas” da tarde, pudessem finalmente chegar ao seu destino. Nos “comes e bebes”, podia apreciar-se toda a gama, muito refinada da gastronomia regional. Desde a feijoada, grelhados variados – entrecosto, tiras, bifanas, etc. – até às doces e deliciosas sobremesas, nada faltou. Evidentemente que, como devido, tudo acompanhado de todo o tipo de líquidos e fluídos (vinho regional, cerveja, sumos, aperitivos, digestivos e… água. Constou-se que na tasquinha de Feirão, serviram um bolo de anos e até espumante do melhor! Haveria aí, certamente, motivo de festa, dentro da festa!

Resta acrescentar que os proventos realizados na tasquinha de Pretarouca vão reverter para as despesas da festa de S. Nicolau, a realizar nos dias 8,9 e 10 de agosto e os da tasquinha de Magueija, destinados à festa de S. Tiago, no último fim de semana do mês de julho.

As atividades encerraram com a tão aguardada luta de 8 pares de lustrosos e portentosos bois, que apesar da sua bravura, bem visível, depois da medição de forças, entre eles, nada constou na ficha clínica, não se tendo apurado sequer um risco na pele, em qualquer exemplar!

Neste tempo, em que o planeta Terra, está tão volátil e cheio de incertezas, com divisões de toda a ordem por esse mundo fora, encontramos no passado dia 27 de abril, no mais improvável dos lugares, na aldeia serrana de Pretarouca, um ambiente de sã alegria e harmonia, num pequeno espaço onde couberam todos, todos, todos! 

Bem hajam, a todos os participantes, destacando, também, de forma especial, todos os que tornaram possível a realização deste evento, desde a organização até ao empenhamento total do pessoal da tasquinha de Pretarouca e Magueija, sabendo que todas aquelas horas de trabalho, antes, durante e depois da festa, nunca terão sido em vão!

Até para o ano!

P.S:

No preciso momento em que se encerra este apontamento, tive conhecimento que a Judite Coelho (referida no texto como feirante de uma das tasquinhas da feira) iniciou, na passada terça-feira, uma peregrinação a Fátima, juntamente com mais 6 elementos, pelo 18º ano. Prometeu rezar por nós.

– Fátima Pedrinho. (elementos recolhidos e pesquisa)

– Hélio Pedrinho (texto)


in Voz de Lamego, ano 95/26, n.º 4803, de 14 de maio 2025

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